Em 1910, Roger Casement, cônsul britânico no Rio de Janeiro, realizou uma investigação sobre denúncias de crimes cometidos pela empresa britânica Peruvian Amazon Company contra comunidades indígenas. Baseado em seu diário, o documentário traça a imagem angustiante da descoberta por Casement de um sistema industrial-extrativo respaldado por assassinatos e trabalho escravo no meio da selva amazônica.
- Por Alysson Oliveira
- 29/08/2022
- Tempo de leitura 3 minutos
Logo em sua abertura, o documentário Segredos do Putumayo se impõe em imagens e sons fortes, reconstituindo brevemente a trajetória do irlandês Roger Casement no Congo. Cônsul do Reino Unido por duas décadas antes de vir para o Brasil, em 1910, instalou-se na região do Putumayo, na Amazônia peruana, onde escreveu um diário, classificado como “perturbador”. A partir desses escritos polêmicos, o documentário reconstitui sua estadia no continente e, mais do que isso, sua visão de mundo.
O diretor do documentário, Aurélio Michiles, cria uma narrativa que intercala escritos de Casament, tirados de seu Blue Book, com depoimentos contemporâneos, organizando uma estrutura em que o presente reflete o passado e a montagem, assinada por André Finotti, estabelece uma relação dialética entre o que aconteceu e o que foi feito, especialmente com os povos indígenas da região.
O escritor manauense Milton Hatoum conta que a viagem de Casement escapou dos clichês, pois “ele via os africanos e índios como parte de uma humanidade à qual ele pertencia como irlandês; olhando o outro sem distanciamento. O que ele viu foi o horror em Putumayo”. Isso fica claro nos comentários do irlandês – narrados pelo ator Stephen Rea – , nos quais mostra-se horrorizado com os maus-tratos contra os nativos e as nativas na produção da borracha.
Os episódios de exploração que ele mesmo presenciou em Putumayo despertaram-lhe reações extremas, chegando a dizer que o tratamento contra os indígenas era ainda pior do que o recebido pelos escravizados da África. A certa altura, escreve em seu diário: “Cheguei à conclusão de que o único jeito desses indígenas do Putumayo saírem dessa condição miserável a que foram reduzidos é fazer uma insurreição armada contra esses senhores. Adoraria armá-los, treiná-los e instruí-los a se defenderem contra esses bandidos [os produtores de borracha].”
Ser exposto a esses horrores da exploração e violência colonial mudou Casement drasticamente, levando-o a sofrer aquilo que o historiador irlandês Angus Mitchell define como uma “longa e profunda metamorfose em um revolucionário”. Quando sai da Amazônia, produz um relatório sobre o que viu lá, provocando uma grande mudança na forma de exploração da borracha na região. Ele, por usa vez, usou-o para expor “a violência, as injustiças e a desumanidade cometidos pelo capitalismo britânico”. E isso, ainda de acordo com Mitchell, “foi um golpe de mestre para minar a reputação do Império Britânico.”
Brasil, como lembrou Casement em uma palestra em Belém, é uma palavra de origem irlandesa e refere-se a uma ilha mítica chamada Hy-Brazil, uma lenda que servia para encorajar marinheiros a irem para o oeste. A experiência do irlandês na Amazônia foi tão transformadora que ele levou esse novo ímpeto revolucionário para seu país quando voltou, resultando em sua prisão e condenação por traição.
A vida de Casement, morto por enforcamento em 1916, poderia ser mais um exemplo de aventura colonial, não fosse o despertar de sua conscientização social e histórica – um movimento que o filme captura muito bem. O diálogo entre o passado, a trajetória do irlandês, e o presente, a situação dos povos indígenas de Putumayo (não apenas a deles, obviamente, mas de todos os povos nativos da América do Sul), faz deste um filme uma denúncia, que joga uma luz sobre uma situação que parece se perpetuar.
