11/07/2026
Histórico Documentário

Segredos do Putumayo

Em 1910, Roger Casement, cônsul britânico no Rio de Janeiro, realizou uma investigação sobre denúncias de crimes cometidos pela empresa britânica Peruvian Amazon Company contra comunidades indígenas. Baseado em seu diário, o documentário traça a imagem angustiante da descoberta por Casement de um sistema industrial-extrativo respaldado por assassinatos e trabalho escravo no meio da selva amazônica.

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Logo em sua abertura, o documentário Segredos do Putumayo se impõe em imagens e sons fortes, reconstituindo brevemente a trajetória do irlandês Roger Casement no Congo. Cônsul do Reino Unido por duas décadas antes de vir para o Brasil, em 1910, instalou-se na região do Putumayo, na Amazônia peruana, onde escreveu um diário, classificado como “perturbador”. A partir desses escritos polêmicos, o documentário reconstitui sua estadia no continente e, mais do que isso, sua visão de mundo.
 
O diretor do documentário, Aurélio Michiles, cria uma narrativa que intercala escritos de Casament, tirados de seu Blue Book, com depoimentos contemporâneos, organizando uma estrutura em que o presente reflete o passado e a montagem, assinada por André Finotti, estabelece uma relação dialética entre o que aconteceu e o que foi feito, especialmente com os povos indígenas da região.
 
O escritor manauense Milton Hatoum conta que a viagem de Casement escapou dos clichês, pois “ele via os africanos e índios como parte de uma humanidade à qual ele pertencia como irlandês; olhando o outro sem distanciamento. O que ele viu foi o horror em Putumayo”. Isso fica claro nos comentários do irlandês – narrados pelo ator Stephen Rea – , nos quais mostra-se horrorizado com os maus-tratos contra os nativos e as nativas na produção da borracha.
 
Os episódios de exploração que ele mesmo presenciou em Putumayo despertaram-lhe reações extremas, chegando a dizer que o tratamento contra os indígenas era ainda pior do que o recebido pelos escravizados da África. A certa altura, escreve em seu diário: “Cheguei à conclusão de que o único jeito desses indígenas do Putumayo saírem dessa condição miserável a que foram reduzidos é fazer uma insurreição armada contra esses senhores. Adoraria armá-los, treiná-los e instruí-los a se defenderem contra esses bandidos [os produtores de borracha].”
 
Ser exposto a esses horrores da exploração e violência colonial mudou Casement drasticamente, levando-o a sofrer aquilo que o historiador irlandês Angus Mitchell define como uma “longa e profunda metamorfose em um revolucionário”. Quando sai da Amazônia, produz um relatório sobre o que viu lá, provocando uma grande mudança na forma de exploração da borracha na região. Ele, por usa vez, usou-o para expor “a violência, as injustiças e a desumanidade cometidos pelo capitalismo britânico”. E isso, ainda de acordo com Mitchell, “foi um golpe de mestre para minar a reputação do Império Britânico.”
 
Brasil, como lembrou Casement em uma palestra em Belém, é uma palavra de origem irlandesa e refere-se a uma ilha mítica chamada Hy-Brazil, uma lenda que servia para encorajar marinheiros a irem para o oeste. A experiência do irlandês na Amazônia foi tão transformadora que ele levou esse novo ímpeto revolucionário para seu país quando voltou, resultando em sua prisão e condenação por traição.
 
A vida de Casement, morto por enforcamento em 1916, poderia ser mais um exemplo de aventura colonial, não fosse o despertar de sua conscientização social e histórica – um movimento que o filme captura muito bem. O diálogo entre o passado, a trajetória do irlandês, e o presente, a situação dos povos indígenas de Putumayo (não apenas a deles, obviamente, mas de todos os povos nativos da América do Sul), faz deste um filme uma denúncia, que joga uma luz sobre uma situação que parece se perpetuar.
 
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