Não foi nenhuma surpresa para a premiação, com a Coppa Volpi de melhor atriz no Festival de Veneza 2022, para a australiana Cate Blanchett pelo drama Tár, de Todd Field. Desde a exibição do filme, no começo do festival, ela vinha sendo a franca favorita. E mereceu, porque a composição que ela faz desta maestrina poderosa e caída em desgraça é realmente magistral, fazendo de Cate uma competidora quase imbatível em quase todas as premiações do ano. Além do prêmio em Veneza, ela já levou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar, Bafta, Critics Choice e Sindicato dos Atores da América.
Além da esperada indicação de Cate como melhor atriz, o filme de Todd Field ainda emplacou outras cinco: filme, direção, roteiro original, fotografia e montagem.
Tár é um filme denso, desses que mergulha num universo bem específico, o da música clássica, recorrendo a uma profusão de nomes que pode intimidar quem não seja muito familiarizado com essa área. O filme é minucioso, embora um tanto longo, debruçando-se sobre questões candentes em torno dessa maestrina, que foi pianista e galgou degrau a degrau a sua ascensão a um posto que, por séculos, foi negado às mulheres. Aparecem, portanto, questões de gênero, sexualidade (a maestrina é lésbica) e cultura corporativa no mundo das altas artes, que dependem de financiadores.
Na pele de uma mulher com inúmeras arestas e uma ambição sem limites, Cate Blanchett brilha no esmero de suas nuances, não temendo expor seu temperamento dominador e sua capacidade de seduzir - que, finalmente, se torna seu calcanhar de Aquiles para tornar-se alvo de maquinações e bullying virtual, esta uma área que ela absolutamente desconhece.
Compondo sua personagem na medida precisa da humanidade, Cate consegue que ela não se torne antipática a nossos olhos, ainda que não esconda suas manobras e dos aspectos mais negativos de seu caráter, como seu autocentrismo e aridez afetiva. Além disso, é visível o empenho da atriz australiana para executar os movimentos da maestrina com a orquestra, tocar piano e também falar alemão em várias cenas. Cate mergulhou na persona que interpreta, um caso singular de ascensão e queda que tem muito material para magnetizar qualquer atriz.
O filme, no entanto, é um bocado árido, embora bastante preciso no retrato de seu ambiente. O roteiro igualmente deixa a desejar na composição de duas outras personagens femininas do entorno da protagonista, sua assistente Francesca Lentini (Noémie Merlant) e sua mulher, Sharon Goodnow (Nina Hoss). É muito pouco deixar para Noémie um papel tão apagado como uma traidora em potencial e, para a espetacular Nina, o de amante rejeitada. Enriqueceria inclusive a dimensão humana do filme sofisticar mais o espectro dessas duas personagens vitais.
