04/07/2026
Drama

O Perdão

Mina tem que criar sozinha sua filha pequena, Bita, depois que o marido, Babak, foi executado sob acusação de assassinato. Um ano depois, os verdadeiros criminosos confessam e ele é inocentado. Mina irá receber uma indenização, mas não se conforma com isso, quer uma reparação do nome do marido. Ao mesmo tempo, surge em sua vida um homem misterioso, Reza, que alega ter uma dívida a quitar com Babak.

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Não é de hoje que o cinema iraniano aborda temas como a condição feminina - foco do vigoroso O Círculo, de Jafar Panahi, vencedor do Leão de Ouro em Veneza 2000 - e critica a pena de morte - objeto do vencedor do Urso de Ouro 2020, Não Há Mal Algum. de Mohammad Rasoulof. Por acaso - ou será que não? -, eles dois diretores aprisionados como supostos “conspiradores” pela teocracia autoritária que governa seu país desde 1979.
 
É igualmente tangenciando esses dois assuntos candentes que caminha o drama O Perdão, dos diretores Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha, que concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim 2021. Com uma narrativa sóbria, aponta os dilemas de Mina (Maryam Moghadam), viúva de um homem injustamente condenado à morte, Babak. Acusado de um assassinato que, por um incidente, ele mesmo julgava ter cometido, Babak é inocentado um ano depois de sua execução, quando os reais assassinos confessam. Mas a tragédia já está consumada e Mina não se conforma. O “dinheiro de sangue”, ou seja, a indenização que ela deve receber, não lhe parece uma compensação justa, além de alimentar as ambições do sogro e do cunhado (Pouria Rahimi Sam), que a pressionam para morar na casa familiar.
 
Uma mulher sozinha tem muitos problemas nesse Irã dominado por uma mentalidade machista que se vale de uma interpretação singular de preceitos religiosos para manter o controle sobre a população feminina. Mina é desconsiderada quando procura as instâncias estatais, em busca de assistência e reparação. Embora tenha um trabalho e se sustente, não pode continuar morando sozinha com a filha, a pequena Bita (Avin Poor Raoufi), sem ser assediada pelo cunhado e vigiada pelos vizinhos - a quem não escapa ela ter recebido a visita de um homem que não é seu parente, levando à sua expulsão do prédio..
 
Este desconhecido, Reza (Alireza Sani Far), desencadeia outras vertentes na história. Dizendo-se um velho amigo do marido morto de Mina, ele alega uma dívida não paga com o falecido e se propõe a quitá-la - o que alivia algumas dificuldades econômicas da viúva. Nesta e em outras situações, como no encontro de um novo apartamento, Reza passa a atuar como um verdadeiro anjo da guarda na vida de Mina, que aos poucos enxerga nele uma possibilidade de romance - insinuado de maneira sutilíssima pelos diretores, para driblar a pesada censura de costumes de seu país.
 
Inserindo-se na respeitável tradição cinematográfica iraniana, O Perdão propõe-se a discutir a ética e as instituições de um Estado que pesa sobre a vida dos cidadãos, especialmente os mais pobres, mas não só. Reza tem ligação com o sistema judiciário e sua resistência a continuar fazendo parte dele por uma questão dilacerante torna-o alvo das pressões das forças de segurança. Não é à toa que cineastas iranianos, como os premiados Rasoulof e Panahi, tornaram-se alvo de perseguição. O cinema tem sido, historicamente, uma via de escape para a discussão dos abusos do modelo governamental teocrático em vigor. Aliás, não só no Irã.
 
Optando por um melodrama carregado de questões sócio-políticas, o filme ganha uma aura de autenticidade ainda maior devido ao detalhe de partir de uma inspiração autobiográfica, ainda que parcialmente. A verdadeira Mina é a mãe da atriz e diretora Maryam Moghadam, uma intérprete empenhada desta mulher intrépida a quem não se deixa, realmente, escolhas. 
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