04/07/2026
Drama

Desterro

Laura vive com Israel e eles têm um filho, Lucas. Dividindo seus dias numa rotina familiar e de trabalho, eles experimentam um momento de impasse. Especialmente Laura, que sente uma profunda insatisfação com a vida que levam e se dispõe a uma jornada de descoberta.

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Estreia na ficção de Maria Clara Escobar - vencedora do Festival de Tiradentes 2012 com o documentário Os Dias com Ele -, Desterro é uma proposta de caleidoscópio. Recusando  uma narrativa linear, divide-se em três capítulos em tempos não consecutivos para avançar sobre os dilemas do casal Laura (Carla Kinzo) e Israel (Otto Jr.)..
 
Pais de um menino, Lucas (David Lobo), os dois compartilham um cotidiano esmaecido, em que as pessoas parecem fantasmas ou robôs, levando adiante uma rotina mecânica. As palavras e os sentimentos nunca se encontram. As emoções, embotadas ao ponto da invisibilidade. 
 
Seja nas conversas com uma amiga, seja na convivência com a mãe (Milsa Gomides) e as irmãs, Laura parece sempre deslocada, além de si. Este desconforto dentro da própria vida é sentido, mas não realmente compreendido pelo marido, sempre um passo atrás da mulher, além de aparentemente conformado com este arco de acontecimentos.
 
Dessa afasia existencial, Maria Clara extrai o material dramático de seu filme, que se derrama em combustão lenta, nestes corpos precisamente fotografados em seus ambientes, seja em casa, seja em espaços mais amplos, por Bruno Risas. Há uma intoxicação do tempo presente nestas pessoas sem flashbacks, que existem diante da câmera, apenas existem.
 
Assim se dá também a terceira parte do filme, que mostra a viagem de Laura, e incorpora, além de um companheiro acidental de viagem, Julio (Rômulo Braga), algumas outras passageiras, não somente do ônibus, como da jornada de vida de Laura - interpretadas por Barbara Colen, Georgette Fadel e Isabel Zuáa, em monólogos de cuja elaboração as atrizes participaram, dando conta de aspectos da condição feminina em muitos contextos, num recurso que lembra eventualmente situações semelhantes em filmes de Pedro Costa.
 
Para Israel, sobra descobrir mais a fundo Laura quando ela se ausenta e ele mergulha num pesadelo burocrático e existencial em busca de respostas e não só sobre ela. A chave de interpretação destes atores é um tanto distanciada e não busca emocionar-nos. Ao contrário, eles nos parecem distantes e perdidos, como uma humanidade em ponto de implosão. Só em sequências eventuais, sempre com música, os personagens dão-se o direito de expandir-se, como é o caso da dança esquisita de Laura e Julio ao som da pegajosa “Ana Maria”, do antigo trio português Odemira. 
 
Do elenco recheado de participações especiais, destaque-se ainda Grace Passô, Eduardo Moreira e Clarissa Kiste. 
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