Baseado em livro da escritora Joyce Carol Oates, Blonde, de Andrew Dominik, passou em competição pelo recente Festival de Veneza dividindo opiniões. Nada de se estranhar, em se tratando de mais um mergulho radical no mito Marilyn Monroe, interpretada com brio pela cubana Ana de Armas.
A atriz será provavelmente o aspecto menos contestado do filme, já que sua interpretação serve a contento à disposição de explorar a construção e, sobretudo, a destruição do mito, ou seja, o esfacelamento de Norma Jeane Baker, a pessoa, pelas exigências impostas à estrela Marilyn Monroe.
O filme de Dominik é eficaz na construção da personagem, em sua imensa fragilidade emocional, a partir de uma infância infeliz, abandonada pelo pai e logo deixada também pela mãe instável (Julianne Nicholson), internada num sanatório. Dessa personalidade insegura, forjou-se a imagem da mulher mais sexy do planeta, abusada em seu corpo e alma por produtores, maridos e amantes, que não consegue romper esse círculo em que o sucesso a aprisiona. Ela se torna vítima de um processo em que satisfaz às fantasias de todos mas sem conseguir, ela mesma, corresponder às suas emoções.
A fotografia de Chayse Irvin cria sequências de grande impacto e beleza em cenas oníricas, que traduzem os sonhos e fantasias mais profundos de Marilyn - como as estradas em fogo na primeira fuga da pequena Norma e sua mãe. Procura-se uma certa fidelidade nas reencenações de capítulos fundamentais da vida de Marilyn, como alguns filmes - Quanto Mais Quente Melhor e Os Homens Preferem as Loiras, entre outros - suas relações amorosas com Charlie Chaplin Jr. (Xavier Samuel), Edward G. Robinson Jr. (Evan Williams), Joe Di Maggio (Bobby Cannavale), Arthur Miller (Adrien Brody) e o presidente John Kennedy (Caspar Philipson).
Essa correspondência com episódios biográficos remete à história da personagem mas procura, mais do que tudo, diluir a aura dourada em torno dela - o que, convenhamos, não é novidade, mas em geral não é feito de uma forma tão determinada quanto no filme de Dominik, que evoca a grande tristeza da belíssima atriz de maneira ampla e respeitosa, mas com alguns excessos - como a insistência em imagens dos fetos das gravidezes interrompidas da atriz que povoam seus pesadelos.
Com uma figura bem mais miúda do que a personagem real, Ana de Armas corresponde-lhe perfeitamente, especialmente no rosto, traduzindo aquela sua indizível mistura de sensualidade e fragilidade infantil. A intérprete cubana chegou a ter um coach de voz para assumir o tom mais suave de Marilyn, e, como ela mesmo disse em coletiva em Veneza, “não quis me proteger, quis experienciar tudo”, referindo-se à maneira como mergulhou na sofrida trajetória de sua personagem. Por isso, ela carrega Marilyn com muita verdade e não será surpresa se for lembrada em premiações, como o Oscar.
Se há poucas dúvidas sobre o acerto da interpretação de Ana de Armas, o mesmo não ocorre em relação ao filme, uma cinebiografia truncada e um tanto circular, em seu conceito de expor o calvário de Marilyn, sem atingir realmente transcendência,originalidade ou poesia.
