Diretor da Aliança Francesa em Irkutsk, na Sibéria, Mathieu Roussel vive ali com a mulher e a filha. Depois de dançar, numa festa, com Svetlana, nora de um chefe local do serviço secreto, ele é acusado de pedofilia com um falso dossiê. Preso, consegue liberdade provisória com uma tornozeleira. Seu próprio advogado o aconselha a fugir, o que acarreta imensos perigos.
- Por Neusa Barbosa
- 26/09/2022
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Partindo de uma história real, mas tomando imensas liberdades, o diretor francês Jérôme Salle constroi o suspense Kompromat - o dossiê russo com largas pitadas de exagero - que eventualmente funcionam para manter o interesse na incrível e perigosa aventura do francês Mathieu Roussel (Gilles Lellouche) na Rússia.
Diretor da Aliança Francesa em Irkutsk, na Sibéria, Mathieu é casado com Alice (Elisa Lasowski) e tem uma filha, Rose (Olivia Malahieude). Adaptado à comunidade, ele fala russo e tem boas relações locais, que o ajudam a restaurar o teatro de sua entidade. A escolha de um espetáculo de dança com referências gays para reinaugurá-lo começa a criar-lhe antipatias veladas. Uma dança numa festa com Svetlana (Joanna Kulig), nora de um chefe do serviço secreto, Rostov (MIchael Gor), cria novas dificuldades para o estrangeiro.
Do dia para a noite, ele é preso, acusado de espalhar imagens de pedofilia pela internet e de abusar da própria filha - com sua própria esposa sendo ameaçada para depor contra ele para poder deixar o país com a menina.
O enredo todo se constroi nesse pesadelo kafkiano que desaba sobre Mathieu, a partir de um “kompromat”, ou seja, de um falso dossiê montado pelo serviço secreto contra seus inimigos, reais ou imaginários. Ele conta com poucos aliados nessa situação de risco, como um advogado local contratado pela embaixada francesa, Borodin (Aleksey Gorbunov).
Deixando de lado a história real que o inspirou - de um diretor da AF, Yoann Berbereau -, Salle e seu corroteirista, Caryl Ferey, se empolgam e deslizam com uma certa leviandade nos clichês para tornar sua história mais vibrante, escorregando em algumas incongruências. De repente, o burocrata francês demonstra um preparo físico de espião para empreender uma escapada febril de seus perseguidores, no meio de uma mata gelada onde há inclusive lobos.
Para manter aceso um fio romântico, Mathieu é ajudado por Svetlana, casada com um soldado mutilado na guerra da Chechênia, Sasha (Daniil Vorobyov) - o que é um jeito de entuchar mais um tema num roteiro já empacotado deles, sem uma real necessidade orgânica disto.
De modo geral, a história entra na atual onda antirussa, voltando aos velhos tempos da Guerra Fria para retratar a maioria dos russos como vilões - este um subproduto da guerra da Ucrânia. Mas, sendo justos, o filme não deixa de dar sua bordoada na França, no episódio em que o embaixador francês (Louis-Do De Lencquesaing) tenta se omitir diante do perigo a que está exposto um de seus cidadãos.
Finalmente, é difícil esquecer que o ator Gilles Lellouche é mais conhecido por sua atuação em comédias, onde ele está certamente bem mais à vontade do que neste papel. Bem ao contrário, a luminosa atriz polonesa Joanna Kulig (de Guerra Fria) valoriza suas participações na tela, entregando bem mais do que este roteiro lhe reserva.
