04/07/2026
Drama

Peter Von Kant

Relendo o filme de Rainer W. Fassbinder, François Ozon transforma o protagonista num homem, um diretor de cinema, envolvido em seus complexos relacionamentos pessoais e profissionais.

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François Ozon voltou às próprias origens com uma releitura empenhada de seu mestre, Rainer Werner Fassbinder, conjugando no masculino o drama As lágrimas amargas de Petra von Kant (1972) em seu Peter von Kant – filme de abertura no Festival de Berlim 2022 e concorrente ao Urso de Ouro.
 
Em Peter von Kant, o ator Denis Menochet realiza sua terceira parceria com Ozon – depois de Dentro de Casa (2021) e Graças a Deus (2018) -, entrando na pele de um cineasta veterano, consagrado mas não imune às costumeiras oscilações na carreira artística. Seus altos e baixos são ainda mais densos na esfera pessoal, especialmente a partir do momento em que entra em sua vida o jovem Amir (o novato Khalil Gharbia, em seu primeiro grande papel e descrito pelo colega Menochet como “uma espécie de James Dean natural” na coletiva de imprensa de Berlim).
 
Ozon acelera o mecanismo do melodrama que tanto encantava Fassbinder, colocando no centro o intenso sofrimento de Peter com as incertezas de sua paixão por Amir. A ciranda emocional de Peter, aliás, envolve todas as pessoas de sua vida -  sua amiga e ex-, Sidonie (Isabelle Adjani), sua filha Gabrielle (Aminthe Audiard) e sua mãe, Rosemarie (Hanna Schygulla, pontuando outra homenagem a Fassbinder, ela que foi uma de suas atrizes-fetiche e integrou o elenco de As lágrimas amargas de Petra von Kant, que concorreu em Berlim há exatamente 50 anos atrás).
 
Se resolveu subverter em parte a história original transformando a protagonista num homem, Ozon recusou mudar a época do relato, permanecendo nos anos 1970 – conforme explicou o diretor na coletiva de imprensa, “mantendo a distância para poder interrogar aquela época”. Ozon ressaltou que, ao reler a peça de Fassbinder (que originou o filme), encontrou vários pontos de contato entre aquele período e os dias atuais, enxergando um “toque contemporâneo” no texto original. Para Ozon, algo que permanece hoje ainda são os “jogos de poder nas relações de trabalho e amor, que não são binários”.
 
Por isso também, não é difícil enxergar nas relações entre Peter, sua ex-atriz Sidonie e sua nova descoberta, Amir, uma espécie de sátira cínica ao mundo do cinema, uma piada de que o ator Denis Menochet, ao ser perguntado sobre semelhanças do filme e sua filmagem, não se esquivou: “ A relação do diretor com os atores é muito parecida”, brincou.
 
A fidelidade ao ambiente dos anos 1970 é obtida com a parceria dedicada de habitual diretor de fotografia, Manu Dacosse – que mergulhou na obra de Fassbinder, que ele não conhecia, imprimindo suas cores fortes, contrastes e vários quadros (como do pintor Giovanni Battista Caracciolo, discípulo de Caravaggio) e fotos (algumas, do próprio Fassbinder) na composição da casa de Peter, cenário único da história.
 
A música, assinada por Clément Ducol, é outro elemento ativo na definição do clima emocional exacerbado, contando com interpretações de canções pelas atrizes Isabelle Adjani (cantando em alemão) e Hanna Schygulla, esta entoando uma canção de ninar que é um momento mágico e singularmente num filme pautado pelos sentimentos extremos.
 
Um personagem que, ao longo do filme, não pronuncia uma única palavra é Karl (Stefan Crepon), o assistente submisso de Peter que tudo assiste, tudo suporta, e é um elemento dos mais expressivos ao longo da narrativa. Trata-se de outro papel que, no filme de Fassbinder, era de uma mulher.
 
Ao final da coletiva, um jornalista indagou de Ozon se Fassbinder não estaria esquecido entre os alemães nos dias de hoje. Com sua habitual diplomacia, o diretor francês primeiro retrucou que “isto é algo para ser perguntado aos alemães”. Em seguida, comentou que, se isto está acontecendo, a explicação poderia ser que “a visão social e política de Fassbinder da Alemanha pós-nazismo é tão dura que talvez seja difícil para os alemães encararem isto de frente”.
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