Caco Ciocler é um ator merecidamente consagrado e respeitado – um dos melhores de sua geração.. Mas, nos últimos anos, tem se revelado também um documentarista muito interessante, uma carreira que começou com Esse viver ninguém me tira, de 2013, sobre como Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa ajudou judeus na Alemanha a emigrarem para o Brasil, durante o regime nazista. Depois veio Partida, de 2019, protagonizado por uma atriz que decide se candidatar (ficticiamente) à presidência do Brasil, depois das eleições de 2018.
Tal qual Partida, O melhor lugar do mundo é agora é um filme de investigação sobre o presente pandêmico de 2020 e 2021, mas que ressoa com força em 2022. Usando de um dispositivo que faria Eduardo Coutinho orgulhoso, Ciocler arma, com colegas atores e atrizes, um jogo de cena, via Zoom, durante o isolamento social para, por meio de verdades e mentiras, investigar o papel e o poder da arte. O filme ganhou o prêmio de público de melhor documentário brasileiro na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2021.
Assumindo um personagem – um entrevistador cético sobre a arte e a profissão de ator –, Ciocler entrevista figuras como Luciana Paes, Danilo Grangheia, Georgette Fadel, entre outros e outras. Todo mundo dizendo verdades e inventando mentiras sobre si mesmos e mesmas. A questão é que facilmente caímos na encenação e dificuldade de distinguir uma coisa da outra.
Nesse sentido, O melhor lugar do mundo é agora é muito revelador de um assunto em pauta há algum tempo, e que foi decisivo em 2018, nas eleições presidenciais: as fake news. Talvez não fosse intenção de Ciocler investigar isso, mas pouco importa, ver seu filme é compreender como estamos – qualquer um, independente do espectro político – a acreditar numa história bem contada. Assim, as narrativas – às vezes, gritantemente absurdas – , na vida real, ganham força e poder.
Como saber, por exemplo, se os episódios de abuso pessoal e profissional narrados aqui são verdade? No caso, isso não importa dentro do filme, o que conta é como respondemos a isso, e, claramente, tomamos partido da vítima, sem sabermos se estamos sendo manipulados com uma inverdade ou não. Isso é a genialidade do filme que nos revela, a contrapelo que seja, o mecanismo da manipulação.
Talvez seja desnecessário dizer que Luciana Paes é uma presença marcante aqui – como sempre. Mas é bom dar crédito a quem merece – todos e todas estão muito bem, mas a atriz se destaca com seu rosto altamente expressivo. Tanto que o filme abre e encerra com ela, que, aliás, cantando Gilberto Gil, inspirou o título do documentário.
