04/07/2026
Drama

Noites de Paris

Em 1981, a França entra em festa com a eleição do presidente socialista François Mitterrand. Para Elisabeth, no entanto, é uma fase de tristeza. Seu marido a deixou e ela deve rapidamente encontrar um emprego que a ajude a sustentar a casa e seus dois filhos adolescentes. Sem experiência profissional, encontra emprego num programa noturno de rádio, em que conhecerá diversas pessoas.

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Uma crônica da vida de uma pequena família de classe média, inserida no contexto sócio-político dos anos 1980 na França, após a eleição do socialista François Mitterrand, ocupa o centro do delicado e intimista Noites de Paris, do diretor francês Mikhaël Hers.
 
Estrelado por uma Charlotte Gainsbourg imbuída de um sentido de fragilidade não raro comovente, o enredo segue a história dessa mulher que ela interpreta, Elisabeth, que na meia-idade se vê abandonada pelo marido, tendo consigo dois filhos ainda adolescentes e dependentes dela. Sem nunca ter tido uma experiência profissional, ela se vê lançada num turbilhão emocional doloroso ao ter que lutar pela própria sobrevivência, o que sem dúvida a leva a descobrir instintos desconhecidos.
 
Os filhos são Mattias (Quito Rayon-Richter), um jovem estudante do ensino médio que sonha tornar-se poeta, e Judith (Ophélia Kolb), uma ativista política empenhada nas muitas passeatas daqueles dias, sonhando com mudanças sociais.
 
Um outro personagem onipresente são as ruas de Paris, onde estas pessoas se deslocam, muitas vezes à noite, criando um elo do filme com a boa e velha Nouvelle Vague, mais uma vez - e ela aqui rende bons frutos. Quito Rayon-Richter, inclusive, guarda uma impressionante semelhança física com Jean-Pierre Léaud quando foi descoberto por François Truffaut, com a diferença de que é louro. Mas revive aquela mesma inquietação do final de adolescência, contemplando uma vida adulta cujas perspectivas parecem um tanto melancólicas. 
 
Assim como a mãe, Mattias também experimenta uma jornada de autodescoberta, não raro amarga, desafiada também pela intrusão na vida da família da jovem Talulah (Noée Abita), um elemento transgressor no ambiente classe média remediado onde eles vivem.
 
Reforçando a ligação da história com a vida noturna, Elisabeth acaba arrumando um emprego num programa noturno de rádio, comandado por Vanda Dorval (Emmanuelle Béart), que funciona como uma espécie de terapia e ponto de encontro para inúmeros solitários.
 
Marcando seu clima de época com uma fotografia em tons cinzas e esverdeados e com a inserção de alguns trechos documentais - alguns, necessários para reencontrar paisagens de uma Paris de 40 anos atrás -, o filme de Hers encontra um lugar falando em tom baixo, penetrando na pele do espectador aos poucos, criando sutilmente caminhos para dizer o que quer dizer. 
 
Uma coisa a lamentar é que se fique tão pouco com Judith, uma personagem muito interessante mas a quem não é dado o devido espaço. De toda a forma, o filme tem ressonância e, sem dúvida, aspira a colocar em pauta a inquietação francesa por decepções com a esquerda, que culminaram numa ascensão conservadora e numa ameaça da extrema-direita xenófoba sempre à espreita.
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