Em 1985, após a eleição do novo presidente argentino, Raúl Alfonsín, começa o processo que investigará as responsabilidades dos ex-presidentes militares sobre os desaparecimentos, torturas e mortes de milhares de cidadãos. À frente do processo, o promotor Julio Strassera corre contra o tempo e enfrenta inúmeras pressões.
- Por Neusa Barbosa
- 17/10/2022
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Concorrente argentino ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2022, o drama Argentina, 1985, de Santiago Mitre, resgata a memória do famoso processo que, naquele ano, levou à condenação de diversos militares ligados à ditadura 1976-1983, como Rafael Videla e Emilio Massera, condenados à prisão perpétua por crimes como desaparecimentos, sequestros e torturas de milhares de cidadãos.
O astro Ricardo Darín interpreta o promotor Julio Strassera, que conduziu aquele processo, no início do governo Raúl Alfonsín. Com narrativa clássica e bem-amarrada, Mitre conduz a narrativa, destacando os muitos perigos no caminho do promotor, cujo trabalho incomodava profundamente os setores militares e ligados à “guerra suja”, que produziu 30.000 desaparecidos naquele país.
Também se dá conta de outros obstáculos no caminho do promotor, como encontrar colaboradores no prazo reduzidíssimo que lhe deram para instruir o processo na justiça civil - este, um dos motivos da resistência dos militares. Strassera, por isso, tem que contar com parceiros inexperientes, como seu vice-promotor, Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani), e um grupo de jovens voluntários para levantar dados que sustentem a condenação de algumas das mais altas patentes militares à frente da ditadura recém-terminada.
Com o coração de seu filme evidentemente comprometido com aquele processo, que deu sustentação ao período democrático que a Argentina mantém ininterruptamente até hoje, Mitre constroi uma narrativa sólida e envolvente, individualizando cada personagem secundário de maneira a evidenciar o sabor humano e político de cada situação. O clímax, evidentemente, é a leitura das considerações finais do promotor, um discurso capaz de emocionar qualquer público, como aconteceu em Veneza, em que o filme foi muito aplaudido na sessão imprensa/mercado, e que tem imensa significação para toda a América Latina, especialmente para o Brasil, às vésperas de uma eleição que deve recolocá-lo na trilha da democracia. Que as lições daquele memorável processo argentino sirvam de exemplo para a reconstrução do país, que viveu também um período democrático ininterrupto entre 1985 e 2016.
