Nos últimos anos, Laure Calamy se tornou uma espécie de operária-padrão do cinema francês, fazendo um filme depois do outro. E isso não é uma reclamação, pois ela é ótima e versátil, indo da comédia – Minhas férias com Patrick, que lhe rendeu o César de atriz em 2021 – a esse novo drama Contratempos, escrito e dirigido por Eric Gravel, que ganhou prêmios de atriz e direção na mostra Horizontes, no Festival de Veneza 2021.
Gravel combina drama e questões sociais em forma de suspense, num filme no qual a ação está sempre em movimento e os problemas da protagonista, Julie, se avolumam. Ela é uma mãe solo, cujo ex-marido sumiu do mapa. Vivendo uma vida quase miserável, ela busca meios de conseguir um emprego melhor. Contratempos é quase como um filme de Ken Loach, mas menos soturno. Ao centro, um modo de produção desenhado para excluir e explorar, e uma vítima dessa dinâmica que busca ascender – ela não quer fama ou fortuna, apenas condições de uma vida mais dignas para si mesma e o filho.
Calamy, mais conhecida pela série Diz pour cent, é uma presença forte na tela, estando em cena o tempo todo. Ela segura uma personagem complexa, que poderia facilmente cair no clichê. Dá a impressão de que ela está correndo o tempo todo, não há um minuto de sossego. Ela trabalha como camareira num hotel de luxo em Paris a uma hora de sua casa. Antes de sair, porém, deixa o filho pequeno com uma vizinha.
Surge uma entrevista de trabalho e ela precisa, novamente, atravessar a cidade. Um trânsito caótico por causa de uma greve é seu maior inimigo. Aqui Gravel coloca seu filme numa posição delicada. Para uma história tão a favor de uma trabalhadora, ele coloca outros trabalhadores como vilões. É, talvez, a tentativa de dar complexidade à dinâmica social de trabalho numa sociedade cuja totalidade nunca conseguimos ver, mas a maneira como o diretor arma essa questão não é tão bem resolvida como o restante do filme.
Calamy é a alma e o corpo da história e assume essa posição com verve e energia. Seu belo rosto dá a ideia de uma mulher comum, que corre de um lado para o outro e está lutando contra o sistema, sem assumir esse fardo como uma Norma Rae. Suas atitudes visam exclusivamente o bem-estar de sua pequena família. Julie pode não se dar conta, mas ao buscar condições de vida melhores para si mesma está mexendo com os pilares do sistema que a sufoca e, nesse sentido, seu ato de procurar um emprego melhor se torna um gesto político.
