Entre os feitos do longa de Marcelo Gomes, está ser protagonizado pela primeira atriz transexual premiada no Festival do Rio na categoria. Kika Sena interpreta a personagem-título, uma mulher trans que trabalha como agricultora no sertão de Pernambuco. O longa ainda levou os prêmios de melhor filme e também o Félix, concedido a longas com temática LGBTQIA+.
Gomes conta que a ideia para o filme veio de uma notícia de jornal: uma mulher trans que sonhava em casar de véu e grinalda numa igreja católica. Partindo disso, o diretor, que assina o roteiro com Armando Praça e Gustavo Campos, imagina a vida dessa mulher.
Paloma vive com o namorado Zé (Ridson Reis), e juntos criam uma menina de 7 anos, Jenifer (Anita de Souza Macedo). A vida é relativamente tranquila, mas a protagonista tem esse sonho, que não é aceito pelo padre local. Nesse sentido, mais do que revelar o conservadorismo da cidade, para ela se trata também de uma nova jornada pessoal de empoderamento.
Gomes dirige com o realismo que lhe é comum em filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus e Era uma vez Verônica. Paloma é um filme de estudo de personagem, em sua trajetória pessoal reveladora de si mesma. A fotografia, assinada por Pierre de Kerchove (Joaquim), é naturalista, ressaltando tanto a paisagem natural, como também a delicadeza e força do corpo de Paloma.
Esse é também um filme que abertamente dialoga com o presente conservador e reacionário do Brasil. Paloma é uma mulher que desafia a sociedade em vários níveis. Primeiro, ao tomar seu corpo para si e lutar contra a opressão e pela vontade de realizar seu grande sonho. O filme encontra em Sena uma grande atriz para um papel complexo e delicado, que, muito provavelmente, conhece em si e em sua história muito do que Paloma enfrenta. Sua interpretação é terna e forte ao mesmo tempo. E, com ela, nasce uma estrela
