Paul Graff é um garoto de 13 anos, de classe média, numa família judaica cheia de afeto e contradições, que sonha tornar-se artista, estimulado pelo avô. Na escola, entra em contato com uma realidade diferente quando conhece um colega negro, Johnny Davis, que vive com a avó em condição de muita pobreza. Um incidente envolvendo a polícia muda drasticamente o destino dos dois.
- Por Neusa Barbosa
- 07/11/2022
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O norte-americano James Gray entrega em Armageddon Time um drama não só autobiográfico e intimista, como delineia no enredo o acirramento do conservadorismo nos EUA. O filme une, assim, o melhor de dois mundos, o particular e o social, numa história ambientada nos anos 1980 que demonstra a maturidade do diretor de 53 anos e tem no elenco um de seus maiores trunfos, aí incluídos os dois mais jovens, Banks Repeta e Jaylin Webb.
O protagonista e alter ego de Gray é Paul Graff (Banks Repeta), um garoto de 13 anos, de classe média, numa família judaica cheia de afeto e contradições. Os pais dele são interpretados com brio por Anne Hathaway e Jeremy Strong, paradigmas de filhos de imigrantes que lutam bravamente para a ascensão social dos filhos através da educação. O avô, interpretado por Anthony Hopkins, representa a nota de afeto mais encorajadora para o garoto Paul, que desenha e sonha tornar-se artista.
A realidade bate à porta na escola pública que ele frequenta, quando se torna amigo de um menino negro, Johnny Davis (Jaylin Webb, extraordinário). Vivendo com a avó em condições muito precárias, Johnny vive literalmente na pele as exceções sociais que levam à exclusão dos afro-americanos das melhores oportunidades nos EUA - uma situação que perdura desde sempre.
O filme se refere a essa desigualdade de uma forma orgânica, através desta amizade sincera entre os dois garotos que, finalmente, tomam rumos separados e vivem um episódio traumático - que abre uma brecha para falar das escolhas difíceis da vida e a um debate ético dilacerante. De outro lado, Gray insere o contexto dos anos 1980, a era de ascensão de Ronald Reagan, que prepara outra ascensão futura de Donald Trump - cuja família, aliás, exerce uma influência profunda e perniciosa na escola particular que futuramente Paul será forçado a cursar.
Esse contraste entre uma elite branca e preconceituosa e as aflições sociais de Johnny - percebidas com sensibilidade por Paul - formam uma das camadas mais viscerais de um filme que cresce quanto mais se pensa nele.
