02/07/2026
Fantasia Drama

Bardo, falsa crônica de algumas verdades

De volta ao seu país natal, o México, o jornalista Silverio Gacho confronta-se com um turbilhão de fantasmas pessoais e sociais, ligados à história conturbada da nação, eternamente desafiada pela vizinhança tóxica dos EUA.

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Com este filme barroco e grandiloquente, o mexicano Alejandro González Iñárritu volta à direção depois de 7 anos - o último fora O Regresso, pelo qual venceu o segundo Oscar como diretor. Em Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades, realiza um filme ambicioso, em que se nota um fio autobiográfico no protagonista, Silverio Gama (Daniel Giménez Cacho), que logo se apaga nos desdobramentos do roteiro, assinado pelo diretor e Nicolás Giacobone (que dividiu com ele os créditos de Birdman, 2014). 
 
Jornalista e documentarista mexicano, Gama volta ao seu país natal para receber um prêmio. A viagem desencadeia uma série de reencontros e reativa lembranças que colocam em xeque a identidade e as certezas de Silverio Essa jornada é filmada da maneira mais ambiciosa, em 65 mm, com direção de fotografia do premiado Darius Khonji, revelando-se em sequências de imensa beleza: como a abertura, que mostra uma sombra voando no deserto; os imigrantes em busca de uma aparição da Virgem Maria; um vagão de metrô invadido pela água; uma montanha de indígenas mortos, remetendo ao genocídio da colonização; e uma engenhosa forma de retratar os desaparecidos, um fenômeno persistente, marca da força do crime organizado no México.
 
Por esse engenho e ambição, nota-se que Bardo… está para Iñárritu assim como A Doce Vida ou 8 1/2 estavam para Federico Fellini.  Ou seja, uma imensa declaração de amor ao cinema passando pelo crivo pessoal, deixando para trás qualquer necessidade de afirmação ou de conquista, como o diretor mexicano já obteve de Hollywood. Ele não precisa provar mais nada a ninguém, então pode-se dar ao luxo de inserir na história de Bardo… - que é o nome de um lugar - a responsabilidade dos EUA em boa parte dos problemas do México. Este aspecto é ilustrado numa cena em que o jornalista conversa com um embaixador norte-americano, não se esquecendo de mencionar que a chamada Guerra Mexicano-Americana, de 1846/1848, foi, na verdade, uma invasão, que custou ao México metade de seu território.
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