04/07/2026
Drama

Diário de viagem

Liz tem 13 anos e uma visão distorcida de seu corpo, que só piora depois de um intercâmbio para a Irlanda. Ao longo dos anos, seus pais tentam de tudo para que a jovem volte a se alimentar, mas ela, cada vez mais, tem dificuldade de comer.

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As primeiras cenas e o título de Diário de viagem, primeiro longa de Paula Kim, não dão exatamente a ideia do que está por vir. Pode parecer uma comédia dramática sobre as aventuras e desventuras de uma adolescente branca de classe média fazendo um intercâmbio e registrando tudo no seu diário com uma borboleta na capa. Mas o filme é bem mais sério do que isso.
 
Liz (Manoela Aliperti) está ansiosa com a viagem, mas não muito empolgada. Com dificuldade de fazer amigos, ela tem uma visão distorcida de seu corpo. Mesmo magra, acredita que está acima do peso, fora de forma e, aos poucos, vai parando de se alimentar. Na Irlanda, se isola, tenta se rebelar – corta e pinta o cabelo –, mas nada a ajuda. E, na volta, está quase irreconhecível para os pais que a esperam no aeroporto.
 
Em casa, Liz começa seu martírio. Finge que comeu, come quando obrigada apenas algumas folhas de alface, ou mesmo quando tenta se alimentar, mal consegue engolir a comida. A mãe (Virginia Cavendish) tenta remediar, faz seus pratos preferidos, tenta agradar – mas nada funciona. O pai (Eucir de Souza) também fica perdido. Na escola, Liz é motivo de gozação entre os colegas, especialmente as meninas.
 
Partindo de suas experiências na adolescência, quando enfrentou um transtorno alimentar, Kim faz um filme dolorosamente honesto sobre esse problema. Não há romantização aqui. O que Liz enfrenta é cruel e difícil de se lidar. Cada vez mais magra e isolada, ela chega bem próxima de morrer em decorrência disso.
 
Apesar de situado nos anos de 1990, Diário de viagem conecta-se com o presente. Se hoje se fala um pouco mais abertamente em transtornos alimentares – um assunto que mal se divulgava naquela época –, ainda pode não ser o suficiente. Mas o filme de Kim traz com dolorosa sinceridade a pauta à discussão.
 
Embora, por um lado, falte um pouco de ambição estética aqui – talvez a mensagem seja mais importante do que o cinema em si –, é preciso destacar interpretação de Aliperti, que tem um comprometimento enorme com o filme e a personagem. Sua transformação física e emocional é impressionante e verossímil – acrescentando mais uma camada de complexidade a Diário de Viagem.
 
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