04/07/2026
Drama

Mali Twist

1962. O Mali tornou-se independente da França e procura instalar sua revolução socialista. O comissário-adjunto da Juventude Samba Touré percorre o interior para orientar os novos projetos. Um dia, entra em seu carro a jovem Lara, que procura fugir do marido violento, imposto por um casamento arranjado. Entre os dois, nasce uma paixão proibida. No Sesc Digital (até 16/2/2026).

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Veterano cineasta francês, Robert Guédiguian deixa de lado seu cenário habitual, a Marselha onde nasceu, para deslocar-se à África, compondo uma história de paixão sensual e política, ambientada nos anos 1960. 
Mesmo tão distante geograficamente da França, o Mali da história, uma ex-colônia francesa, serve perfeitamente aos interesses temáticos habituais de um diretor marxista e sempre muito engajado em seus relatos, aos quais nunca faltam diversos elementos humanistas. 
 
Assim, o roteiro, assinado por ele e Gilles Taurand, envereda pelo questionamento a uma das principais utopias dos anos 1960, a instalação de uma revolução socialista, que é o contexto deste Mali recém-independente, em 1962, governado pelo presidente Modibo Keita.
 
Guédiguian individualiza este tema pelo olhar e o corpo de seu protagonista, Samba Touré (Stéphane Bak), Comissário-adjunto da Juventude e líder de um trio de jovens como ele, Jules (Saabo Balde) e Bakary (Ahmed Dramé), encarregados de percorrer o interior do país para desencadear a implantação de campos coletivos, cooperativas, escolas e farmácias populares.
 
Investindo ainda mais na personalização das posições numa sociedade em conflito, Guédiguian situa Samba numa família de posses, liderada por um pai comerciante, Lassana (Issaka Sawadogo) - que, apesar de tradicional nos costumes muçulmanos, casado com três mulheres, tem especial apreço na formação escolar dos filhos. 
 
Os diálogos entre Samba e o pai ilustram com clareza o princípio de questionamento que se abre no seio da sociedade malinense, em que as forças econômicas e religiosas tradicionais se mobilizam contra a tentativa do governo socialista de criar instrumentos de nivelamento social e compartilhamento das riquezas. Muitos comerciantes e produtores rurais, na verdade, viram na partida dos colonialistas franceses uma oportunidade de abocanhar sozinhos os lucros que antes dividiam com eles. Nenhum deles quer saber dessa história de igualdade, muito menos de abrir mão dos seculares preceitos familiares que subjugam as mulheres, especialmente no campo, a casamentos forçados em troca de dotes que favorecem interesses econômicos de seus pais.
 
Encarnando outra vertente fundamental desta história, surge na vida de Samba a garota Lara (Alice da Luz), uma jovem aldeã que escapa de um casamento forçado, escondendo-se na viatura do comissário para rumar para a capital malinense, Bamako. Não há, pelo código familiar vigente no país então, nenhuma possibilidade de que ela pleiteie um divórcio, que só pode ser concedido pelo chefe da aldeia - que, no caso, é avô do marido dela. 
 
A fotografia de Pierre Milon tem como fio condutor reproduzir diversas fotos do admirável e premiado fotógrafo Malick Sidibé (1936-2016), compondo um painel de época de um Mali empolgado por sua independência em que os jovens lotavam as centenas de discotecas da capital - só em Bamako, na época, havia 200 -, vestidos em trajes ocidentais e dominando a sinuosa linguagem corporal do twist. Um detalhe que sinaliza como a vitalidade da juventude se sobrepõe a tudo.
 
É visível que, em seu filme, o diretor materializa seu próprio questionamento sobre as possibilidades da revolução naqueles dias, com a ortodoxia de seus líderes entrando em choque com uma sociedade patriarcal que, como reflete um dos personagens, não estava preparada para isso. A saga dos amantes proibidos Lara e Samba é mostrada de maneira luminosa e também impregnada de um toque de tragédia shakesperiano, com este jovem herói dividido entre uma intensa paixão e conflitos éticos numa situação política que dilacera seus próprios sonhos e valores.
 
É notável também como o aspecto machista desta sociedade tradicional é exposto e rebatido pelas personagens femininas, não só por Lara, acentuando a complexidade do filme numa direção altamente positiva. 
 
Pode-se acusar Guédiguian de algum didatismo - afinal, ele sempre busca uma extrema clareza - mas isto é superado com vantagem pelo humanismo que impregna seus personagens. Por idealistas que sejam, nunca deixam de agir como pessoas humanas de acordo com seu tempo e lugar. 
 
O fato de que as filmagens tenham tido de ocorrer no Senegal e não no Mali, hoje dominado por fundamentalistas islâmicos, fala por si só sobre a tragédia do fracasso de sua independência e revolução. E, nessa conta, entra ainda uma crítica nada sutil ao colonialismo francês. Assim, Mali Twist, sendo eventualmente nostálgico, não deixa de ter dedicado a maior parte do tempo à esperança, à solidariedade e ao amor e não ao exercício de um niilismo vazio.
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