25/06/2026
Documentário

Clarice Lispector - A descoberta do mundo

Partindo de duas longas entrevistas de Clarice Lispector, o documentário resgata a vida e obra da escritora, contando também com depoimentos de familiares, amigos e colegas que trabalharam com ela, como Alberto Dines e Marina Colassanti. No Sesc Digital (de 1/2 a 1/4/2024).

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Clarice Lispector: A Descoberta do Mundo tira seu subtítulo de uma admirável coletânea de crônicas da escritora, nascida na Ucrânia e radicada no Brasil desde bebê. O livro serve como uma espécie de força motriz nesse documentário, dirigido por Taciana Oliveira, que traz trechos de obras, depoimentos da própria escritora, além de amigos e familiares. Construído na forma de um ensaio visual-literário, o longa consegue superar, assim, as limitações do modelo de pessoas falando para a câmera.
 
Seguindo, mais ou menos, a ordem cronológica da vida de Clarice, que nasceu em 1920 e morreu em 1977, um dia antes do seu aniversário, o filme não se propõe a desvendar “os mistérios de Clarice”, como já cantaram – até porque seria uma tarefa vã. O que há na obra dela que seduz até hoje? Alguns entrevistados e entrevistadas até ensaiam alguma resposta, mas o filme vai muito além disso.
 
Buscando ecos entre a vida e a obra da escritora, a documentarista traça um retrato histórico e literário de Clarice, contando com duas entrevistas dela mesma como guias do filme: um longo depoimento que Clarice prestou ao MIS-Rio, e uma entrevista a Arakén Távora, no programa Os Mágicos, da TV Educativa, de 1976. A partir das falas da própria biografada, o filme caminha, trazendo outros depoimentos e trechos de obras lidos por atores e atrizes brasileiras.
 
Marina Colassanti, editora de suas crônicas no Jornal do Brasil, seu marido, o poeta e professor Affonso Romano Sant’Anna, o jornalista Alberto Dines, e Sara Escorel, que foi esposa de diplomata, como Clarice, dão alguns dos depoimentos mais iluminadores, ao lado de membros da família da escritora.
 
Uma constante nas falas, e algo do qual a autora de A hora da estrela parecia  bastante ciente, é a beleza de Clarice, que, segundo o filme, chegou a ser agarrada por Jânio Quadros, a quem ela repeliu. Essa questão da beleza feminina é um ponto discutido no filme também, especialmente a partir do conselho que a escritora deu à colega Lygia Fagundes Telles para não sorrir nas fotos, senão a literatura delas não seria levada a sério.
 
Com roteiro escrito pela diretora e Teresa Montero, a mais importante biógrafa da escritora, Clarice Lispector: A Descoberta do Mundo vai agradar em cheio aos fãs da autora de Perto do coração selvagem, Água viva e A Paixão Segundo G.H., entre tantos outros livros. Não parece trazer grandes novidades sobre a artista e sua obra, mas traça com respeito, carinho e sagacidade o retrato de uma mulher indecifrável.
 
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