06/06/2026
Drama

Sol

Téo se prepara para sair de férias com a filha pré-adolescente, Duda, quando recebe telefonemas insistentes sobre seu pai, Teodoro, que abandonara a família há 30 anos. Resistindo a este contato, Téo acaba obrigado a ir ao encontro do pai, numa viagem que permite colocar em foco os desacertos da história da família.

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O título escolhido pela diretora Lô Politi para seu terceiro longa é enigmático. Afinal, o que é Sol ? A luz dourada que se derrama na pele dos protagonistas, envolvidos numa atribulada jornada de procura e autoconhecimento? Ou a lembrança de uma mulher há muito falecida e que mudou a sorte de uma família?
 
Esta pequena provocação poética abre o caminho para uma história intimista, familiar, que constrói uma indagação sobre as possibilidades da paternidade e mesmo da identidade masculina, incorporadas nas figuras de Theodoro (Everaldo Pontes) e Téo (Rômulo Braga). Um pai e um filho distanciados há décadas e repentinamente confrontados, num momento em que Téo procura acertar as diferenças de seu próprio relacionamento com a filha pré-adolescente, Duda (Malu Landim).
 
Theodoro torna-se, então, o passageiro incômodo, indesejado pelo filho, numa viagem que pretendia de férias, de reaproximação com a filha, ela entrando numa idade de transformações e estranhezas por si sós perturbadoras. A maneira como a diretora, que antes assinou a ficção Jonas e o documentário Alvorada (codireção com Anna Muylaert), nos aproxima dos desconfortos e perplexidades do pequeno clã familiar é delicada, acumulando detalhes que depois somam conhecimento dos personagens. O desenho e a água são elementos de ligação entre pai e filho, mas também de conflito e ameaça de morte, sublinhados dentro da trama pela fotografia cristalina de Breno César. 
 
A economia de palavras, que seria um outro traço quase genético compartilhado entre os dois homens, é moldada pela situação, com a explosão de palavras de rancor e cobrança de Téo e o silêncio culpado de Theodoro - que Duda tenta mediar. Chegando por último a esta relação, a garota traz o frescor da inocência e pode olhar o avô recém-descoberto com outros olhos, descontaminados da carga de ausência e abandono que foram impostos sem explicações a Téo por quase 30 anos. 
 
Uma das potências do filme está na escolha destes dois intérpretes. Everaldo Pontes é uma força da natureza e transmite toda a complexidade de seu personagem sem falar uma palavra metade do filme, só com aquela sua expressividade de um rosto e de um olhar que atravessa mundos tanto pelo brilho como pela opacidade. Rômulo Braga, por sua vez, domina as escalas de uma mágoa do tamanho da vida, dosando a agressividade sem maquiá-la. 
 
Curiosamente, talvez de propósito, a única figura feminina mais presente em cena, a menina, é a menos explicada, porque a menos definida - e a citada Sol, a mulher morta de Theodoro, é um símbolo perfeito desse fantasma feminino que paira entre os homens, separa seus caminhos mas permanece, misteriosa e incompreendida, muito além de sua morte, imortalizada na escultura de proa de um barco, que Theodoro insiste em carregar por toda a viagem, como um talismã. 
 
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