O documentário, assinado por Helena Lara Resende e Marcos Ribeiro, tem o mérito de oportunamente resgatar a memória do jornalista e escritor mineiro Otto Lara Resende (1922-1992) de uma forma ao mesmo tempo carinhosa e complexa. Passados 30 anos de sua morte, é um bom momento de trazer novamente à luz sinais da passagem deste magnífico autor, cuja sagacidade e humor peculiar enriquecem a cultura brasileira.
Contando com a filha caçula do escritor como co-diretora, tem-se acesso a materiais preciosos, como fotos, cartas e bilhetinhos familiares, que informam não só sobre passagens da vida do personagem como sobre seu temperamento. Esta intimidade permite que o filme atravesse camadas e se torne menos convencional do que às vezes documentários deste tipo se tornam.
Colabora muito também para a clareza da narrativa a participação do jornalista e escritor Humberto Werneck como uma espécie de condutor que organiza episódios da vida de Otto. Nascido em São João del Rey em 1922, tornou-se jornalista precoce no Rio de Janeiro aos 16 anos, formando, ao lado de Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, um dos quartetos mais sagrados da literatura brasileira.
A literatura de Otto entra pelo filme através da presença de dois atores, Rodolfo Vaz interpretando o próprio e lendo trechos escolhidos, leitura essa que cabe em outros momentos a Julia Lemmertz.
Uma preciosidade é contar com algumas entrevistas televisivas que permitem ao espectador conhecer a carismática figura de Otto, seu sorriso e auto-ironia, ao lado de seus três amigos inseparáveis e também de Nelson Rodrigues e outros participantes da invejável cena cultural daquela geração.
No jornalismo, Werneck lembra episódios memoráveis, como o tempo em que Otto era editorialista de dois jornais cariocas de linhas políticas distintas, O Globo e o Diário de Notícias, o que, como lembra o entrevistado, o colocava na complexa posição de polemizar consigo mesmo.
O humor peculiar, o ceticismo e o rigor ético de Otto são sintetizados numa frase do escritor que afirmava almejar, ao final da vida, ao menos não ter colaborado para aumentar a abjeção do mundo. E isto, certamente, ele não fez. A passagem de Otto pelo mundo deixou para trás um rastro de inteligência e simpatia, além de livros notáveis, como O Lado Humano, Boca do Inferno, O retrato na gaveta, O braço direito e outros, sempre em tempo de descobrir ou redescobrir.
