02/07/2026
Drama

Babilônia

Nos anos 1920, Hollywood era a meca dos sonhos e também de todos os excessos. Nesse ambiente frenético, prospera o astro Jack Conrad, dividido entre o sucesso, a bebida e os casamentos tumultuados. Chegam aí, para buscar um lugar ao sol, a aspirante a atriz Nellie LaRoy e o mexicano Manny Torres, que se torna um faz-tudo e ascende nos bastidores dos sets. Na Netflix.

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Babilônia, de Damien Chazelle, é uma espécie de espelho perverso para seu filme mais celebrado, La La Land - que lhe deu um precoce Oscar de direção, aos 32 anos, em 2017. Ambos os filmes mergulham nos bastidores de Hollywood, mas La La Land opta por uma abordagem mais intimista, colocando em primeiro plano um casal encantado pela mística dos musicais com Fred Astaire e Gene Kelly. Babilônia, como o nome já indica, explode numa escala imensa e corrosiva, expondo as vísceras de uma meca do cinema entregue a todos os vícios nos turbulentos anos 1920.
 
Já nas primeiras cenas, retratando uma enorme festa e um bacanal que se ambientam numa grande mansão, a história manda seu recado: fiquem de fora os inocentes e puros de coração porque aqui não há lugar para a ingenuidade. Desta festa, emergem os três personagens que carregarão, ao longo das mais de 3 horas do filme, as suas principais trajetórias: o astro Jack Conrad (Brad Pitt), consagrado, bêbado e especialista em casamentos conflituosos; a aspirante a atriz Nellie La Roy (Margot Robbie), que não se poupa de nenhum excesso para conquistar o seu lugar na tela; e o faz-tudo Manny Torres (Diego Calva), um mexicano em busca de trabalho que se desdobra em todas as funções dos bastidores que alimentam a louca máquina de produzir sonhos.
 
Ainda se está nos tempos do cinema mudo, mas isto está para acabar assim que Al Jonson pronuncia as primeiras palavras e entoa a primeira canção em O Cantor de Jazz (1927). Tudo vai mudar para os atores, agora obrigados a decorar longos textos e empostar uma voz que, até ali, não precisava ser bela, porque não era ouvida. Até o movimento nos sets vira uma neurose, porque os atores são submetidos a marcações implacáveis para terem suas falas captadas por microfones ultrassensíveis. Qualquer ruído, como solas de sapato ou espirros podem botar uma cena a perder, como se passa numa sequência particularmente expressiva do filme.
 
Interessado como é nestes bastidores da sétima arte, Chazelle esmera-se em mostrar tudo o que pode a partir de um orçamento generoso, que lhe permite ter um desenho de produção vistosíssimo - assinado por Florencia Martin e Anthony Martino, premiados no Critics Choice. Isto, no entanto, não lhe garante um toque de magia, que falta em diversos momentos. É como se a bizarrice de tantas situações retratadas esgotasse em si mesma o potencial de suas sequências, faltando um passo seguinte - a conexão com o que torna humanos cada um destes seres excêntricos. 
 
Há exceções, é claro, como nas cenas que envolvem o saxofonista Sidney Palmer (Jovan Alepo) quando é obrigado a enfrentar as absurdas imposições de um período mais racista do que o atual. Outra cena, envolvendo Jack Conrad e a temida crítica Elinor St. John (Jean Smart), resgata o que resta de dignidade no grande ator, confrontado com sua decadência. Cabe a Manny, porém, o papel mais humanizado do elenco, encarnando um personagem um tanto ingênuo, apesar de suas funções como executivo de estúdio. Atriz dotada que é, Margot Robbie encara uma personagem cujos excessos e loucuras terminam por privá-la deste traço tão necessário, a verossimilhança. Falta pouco para que se transforme numa personagem de cartoon, como a sua famosa Arlequina. 
 
Por eletrizantes que sejam algumas sequências - neste último caso, a perigosa aventura de Manny com um gângster (Tobey Maguire) é a principal - , o filme provoca um certo cansaço, até por uma duração que não se sustenta. E perde de vista um aspecto importante - porque afinal o cinema daqueles dias, que produziu tantos clássicos, era tão impactante e amado pelo público ? Isso Babilônia não é capaz de mostrar, satisfazendo-se com os escândalos dos bastidores.
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