Vencedor do Leopardo de Ouro, prêmio máximo do Festival de Locarno, e diversas outras premiações nacionais e internacionais, Regra 34, de Julia Murat, busca o equilíbrio entre os opostos que se intercalam na vida de sua protagonista, Simone (Sol Miranda). De um lado, está o mundo estratificado do Direito, faculdade que ela está concluindo, de outro, o inusitado trabalho de camgirl, exibindo seu corpo online em performances eróticas que lhe permitiram custear o curso.
Jovem negra, trabalhadora e moradora de bairro longe do centro, Simone tem preocupação social: quer ser defensora pública. No próprio treinamento para sua nova profissão, ela entra em contato com mais contradições entre o mundo supostamente ordenado do Direito e suas performances. De um lado, ela é orientada a oferecer ajuda a vítimas da violência e de abusos que procuram por apoio. Na sua esfera íntima, Simone se sente desafiada a ir cada vez mais de encontro à ruptura de todas as regras, deixando-se atrair por práticas que oferecem inclusive riscos físicos, como a asfixiofilia.
O potencial de provocação destes universos em paralelo terá sido, provavelmente, a causa das premiações extensivas do filme, que mostra honestidade em sua busca - esta é talvez sua maior qualidade, a coragem de uma procura. Mas o entrelaçamento entre as duas esferas já não se dá de maneira tão orgânica. Os relatos dos clientes atendidos pela Defensoria, por outro lado, injetam de vida e realidade uma narrativa que peca pelo artificialismo, por mais que as sequências sexuais entre Simone e os parceiros Coyote (Lucas Andrade) e Lúcia (Lorena Comparato) mantenham certa energia e beleza.
Segurando o interesse da câmera com bastante carisma, a protagonista não tem uma construção dramatúrgica capaz de sustentá-la nessa escolha visceral por uma jornada de riscos que se assemelha a uma pulsão de morte em mais de um momento - um perigo de que as amigas Lúcia e Naty (Isabela Mariotto) tentam em vão demovê-la. Mantida a estratégia de levar a provocação até o limite, a diretora mostra, no entanto, uma certa falta de coragem ao optar por um final aberto. Há portas que convém abrir quando se propõe uma aventura destas.
O artificialismo maior está em certos diálogos, como numa discussão superficial sobre a prostituição que poderia render muito mais. Esta é provavelmente a área em que se ressente de um maior refinamento para que as ideias ventiladas na narrativa pudessem realmente fluir nestes jovens corpos em movimento.
