Um serial killer está matando prostitutas na cidade sagrada de Mashad, no Irã. Por telefone, ele anuncia cada nova morte para um jornalista, Sharifi. A polícia não tem pistas e não parece muito motivada a pegar o assassino. Contra essa indiferença, ergue-se uma repórter vinda de Teerã, Arezoo Rahimi, que está disposta inclusive a correr riscos pessoais para pegá-lo. Na Mubi.
- Por Neusa Barbosa
- 17/01/2023
- Tempo de leitura 2 minutos
O feminicídio com motivação fanático-religiosa no Irã é o tema do policial Holy Spider, de Ali Abbasi, que venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes 2022 para Zar Amir Ebrahimi.
O modo como Holy Spider mostra violência, nudez e sexo é altamente incomum em filmes de origem iraniana - mas ele foi filmado na Jordânia, ainda não tendo perspectiva de exibição no Irã, atualmente vivendo um período obscurantista. Seu diretor, Ali Abbasi, um iraniano de origem dinamarquesa - que assinou o inquietante Border -, recupera aqui a história real de uma onda de crimes ocorridos há 20 anos na cidade sagrada de Mashad. Lá, um matador a princípio misterioso, estrangulou 16 prostitutas. Ele era identificado nos jornais como “aranha” pelo método como embrulhava os cadáveres de suas vítimas.
Mesmo desenvolvido como um thriller, Holy Spider não faz mistério da identidade do assassino, seguindo as ações de Saeed Azimi (Mehdi Bajestani), um ex-veterano da guerra Irã-Iraque fanatizado pelas pregações radicais de um imã. Acreditando-se portador de uma “missão moral”, ele se dedica a matar prostitutas, tidas como impuras e decaídas, tendo o cuidado de telefonar para um jornalista, Sharifi (Arash Ashtiani), para anunciar mais um crime.
A polícia não tem muitas pistas e não parece muito empenhada em deter o assassino - sintoma de um mundo em que as mulheres não contam muito, menos ainda se pertencerem a um grupo socialmente desprezado, não só pela pobreza mas pelo viés moralista. Contra isso ergue-se uma jornalista, Arezoo Rahimi (Zar Amir-Ebrahimi), que veio de Teerã e está disposta a arriscar-se para encontrar o criminoso.
No roteiro, assinado por Abbasi e Afshin Karam Bahrami, traça-se um vívido panorama das instituições político-religiosas de uma cidade sagrada, confrontada com um matador cujas ações, absurdamente, tornam-no popular. Também dá uma ideia do funcionamento da justiça iraniana, em que o aspecto religioso é indissociável do ordenamento jurídico. Ao final, ainda aponta para um processo em que a mentalidade machista em vigor mostra-se pronta a ser transmitida à geração seguinte, no caso, ao filho de Saeed, que parece facilmente convencível de que as ações do pai foram de algum modo justificáveis, ou mesmo heróicas. Por tudo isso, o filme é muito recomendável.
