De certa forma, os filmes de M. Night Shyamalan sempre foram sobre apocalipses – seja em escala global ou pessoal. Se pensarmos no sentido original da palavra, revelação, as famosas reviravoltas de seus longas são apocalipses narrativos, que trazem ao público uma verdade até então escamoteada na trama. Em Batem à porta, o cineasta se apoia no significado mais comum a partir das consequências bíblicas dessa revelação: a destruição.
Partindo do romance O chalé no fim do mundo, de Paul Tremblay, Shyamalan encontra uma história ao seu gosto, que permanece inexplicável e tensa durante boa parte do tempo, até que, no final, é didática e insuficientemente explicada. Geralmente isso ocorre nos filmes dele, não há ambiguidades, nem sutilezas, é preciso explicitar alguns elementos, pois ele (ou os produtores) parece(m) não confiar muito na capacidade cognitiva do seu público.
Mantendo a duração com menos de 2h, o diretor consegue manter a tensão sempre no limite, sem enrolações ou barrigas. O filme começa já com a família composta pela pequena Wen (Kristen Cui, excelente) caçando gafanhotos para observá-los. Ela é cuidadosa, até mesmo carinhosa com os insetos, deixando claro para eles que não os vai matar, apenas observar. É como se o filme desse uma piscadela ao seu público para o que vai acontecer.
Logo chega um homem enorme – muito alto e muito forte – Leonard (Dave Bautista, que se revela um excelente ator a cada filme), que começa a conversar com ela, mas ela o evita, pois “não fala com estranhos”. Para que se tornem amigos, ele se apresenta e começam a conversar, até que outros três estranhos começam a se aproximar dele, carregando coisas que, de longe, parecem um machado. Assustada, a menina corre para o chalé e avisa seus dois pais, Andrew (Ben Aldridge) e Eric (Jonathan Groff).
Como indica o título, o quarteto bate à porta, Andrew e Eric se recusam a abrir, mas isso é o de menos, eles entram. Além de Leonard, esses Cavaleiros do Apocalipse são formados por Sabrina (Nikki Amuka-Bird), uma enfermeira; Ardiane (Abby Quinn), uma cozinheira; e Redmond (Rupert Grint), que já esteve preso uma vez. Eles se conheceram por acaso, depois de ter visões que os levaram até o chalé isolado onde o casal passa as férias com a filha.
O estratagema narrativo aqui é deixar o público tão às cegas quando Andrew, Eric e Wen. Descobrimos as coisas na medida em que eles descobrem. Leonard diz que o casal terá de fazer uma escolha: ou sacrificar um dos três (e eles devem optar quem será a oferenda e eles mesmos matarem) ou deixar que o apocalipse se abata sobre a humanidade – o que será horrível, de acordo com a visão que ele e seus três companheiros tiveram.
Como é comum nos filmes de Shyamalan, não se deve contar além daqui – essas são basicamente informações que estão no trailer mesmo. Mas o que vem a seguir é a construção da tensão e um pouco de violência (sempre fora de quadro), só vemos seu resultado. Shyamalan sabe conjugar elementos para criar suspense e aumentar a tensão. Excetuando alguns flashbacks, ele conta uma história direta, que se passa em poucas horas.
Batem à porta é um filme sobre negociações – e essa é uma palavra-chave no presente. Não apenas no sentido comercial, mas também figurado: negociamos direitos e deveres, por exemplo, tamanha a colonização do pensamento capitalista em nossa vida social. E, nesse sentido, o casal homoafetivo – que já foi vítima de violência homofóbica – precisa negociar sua existência. Inclusive entre si, negociar o que farão. Leonard diz que não sabe por que eles foram escolhidos, mas, enfim, eles foram. A filha adotiva é de ascendência asiática – novamente, uma escolha não por acaso do diretor. Sabrina é negra, e não por acaso também, conforme mostrará seu destino.
O filme se torna uma investigação, no fundo, sobre as disputas de minorias no mundo contemporâneo – onde um apocalipse sempre parece estar em vigor. Ao fechar foco nesse microcosmo, aterrorizado primordialmente por um homem branco e heterossexual, Shyamalan nos mostra algumas verdades sobre o mundo em que vivemos. Não que ele tenha alguma novidade a dizer sobre isso, mas é sempre bom lembrar que as relações humanas são marcadas por negociações e disputas – mesmo quando há laços de afeto.
