Mais uma vez, o prestigiado diretor e roteirista inglês, Martin Donagh, constroi uma história bem-amarrada e precisa, com toques de drama e humor negro, em seu Os Banshees of Inisherin, filme que venceu prêmios para seu roteiro e o ator Colin Farrell no Festival de Veneza e abocanhou respeitáveis 9 indicações ao Oscar (filme, direção, roteiro original, montagem, trilha musical, ator para Colin Farrell, atriz coadjuvante para Jerry Condon e duas de ator coadjuvante para Brendan Gleeson e Barry Keoghan).
O lugar é uma ilhota irlandesa, habituada por pouquíssimas pessoas e onde todos se conhecem, em 1923. A crise é desatada pela separação de dois amigos que nunca se largavam, Padraic (Colin Farrell) e Colin (Brendan Gleeson) - estes, atores irlandeses habituais dos filmes de McDonagh, ambos em Na Mira do Chefe (2008) e Farrell, em Sete Psicopatas e um Shitzu (2017).
Fiel ao seu estilo, McDonagh assina um roteiro afiado, acompanhando a intensa crise pessoal em que mergulha Padraic, rejeitado sem razão, do dia para a noite, pelo amigo com quem compartilhava diariamente um trago no único pub local.
McDonagh é preciso ao delinear a psicologia deste pequeno lugar, habitado por pessoas simples à primeira vista, mas altamente complexas quando colocadas sob uma lente de aumento. Neste universo provinciano, contaminado por uma testosterona que determina comportamentos atávicos, uma das poucas vozes femininas é a de Siobhan (Kerry Condon), a irmã de Padraic, que tenta inutilmente levar o irmão a alguma racionalidade na condução do desentendimento com o velho amigo - esse, um cara teimoso, osso duro de roer, e abalado por uma difusa depressão que se acentua com o passar do tempo.
O desespero existencial por esse sentimento de aproximação da morte - algo que parece escapar de todo a Padraic - é compartilhado por Colm nas confissões ao padre local (David Pearse). É isto que o leva a querer dedicar todo o seu tempo à composição de música. Música, como ele acentua, é algo que sobrevive, ao contrário de nós todos.
Outro elemento sobrenatural é introduzido pelas constantes aparições repentinas da sra. McCormick (Sheila Flitton), cujo mau olhado e previsões de morte tornam-na uma pessoa evitada sempre que possível. Um outro elemento perturbador, numa outra chave, é o garoto Dominic (Barry Keoghan). Abusado pelo pai, o violento policial Peadar Kearney (Gary Lydon), o rapaz exprime com uma sinceridade desconcertante o absurdo que permeia toda a convivência na ilha.
Filmado em belíssimas paisagens na Irlanda, o filme é um encantamento para os olhos, na fotografia de Ben Davis, que pontua esta geografia do isolamento, e também na sutil e densa trilha musical de Carter Burwell (autor da trilha do filme mais famoso de McDonagh, indicado ao Oscar, Três Anúncios para um Crime). Uma surpresa é que uma melodia, tocada no filme ao violino por Gleeson, é de sua autoria. O ator, aliás, é um exímio violinista.
Tudo somado, Farrell e Gleeson ocupam com talento seus personagens, dois simplórios movidos por motivações aparentemente banais, mas em cuja trajetória se encontram algumas das mais irresolvíveis questões da vida e da morte. E há um momento em que, neste duelo sem revólveres, torna-se muito tarde para voltar atrás. - o que se revela igualmente uma metáfora sutil para a época da história, 1923, ano em que a Irlanda esteve mergulhada numa guerra civil, cujos bombardeios os ilhéus observam à distância.
