06/06/2026
Documentário

Andança - Os encontros e as memórias de Beth Carvalho

Ao longo de sua vida, a cantora carioca Beth Carvalho filmou incansavelmente rodas de samba, encontros em bares e em sua casa com sambistas de diversas gerações, cujas músicas ela gravou e divulgou. O documentário resgata alguns desses momentos.

post-ex_7
Um inestimável baú de imagens, filmadas por toda a vida pela cantora Beth Carvalho, são a fonte de onde emana o documentário Andança - Os encontros e memórias de Beth Carvalho, de Pedro Bronz. Privando desde a infância da intimidade da cantora, grande amiga de sua mãe, Bronz conhecia o vício secreto de Beth, sempre filmando tudo e todos à sua volta. Considerando que ela circulava entre os maiores bambas do samba, gravando suas composições, era de se esperar que o material, cerca de 2000 horas filmadas, rendesse momentos antológicos, iluminados pelo carisma e a simpatia da intérprete carioca, que morreu em 2019, aos 73 anos.
 
Por conta de sua persistência em captar tantos momentos nos palcos, bastidores, bares, rodas de samba e na própria casa, frequentada por compositores de todas as gerações, essa incansável cineasta amadora foi capaz de guardar uma antológica coleção de momentos impagáveis para quem gosta de música. Não só pelas interpretações como pelas conversas, regadas de ironia e bom-humor. Um desses momentos é a curiosa conversa que ela mantém com o mestre Cartola e ele lhe diz que sua nova canção, As rosas não falam, “não era seu estilo”. O mestre acreditava então que a potência de Beth não se adequava ao intimismo daqueles seus versos, que ela, provando-o enganado, transformou numa das canções mais marcantes de seu repertório.
 
Beth era assim, íntima dos veteranos, como Cartola e Nelson Cavaquinho, mas também uma garimpeira curiosa dos novos músicos - como quando passou a frequentar uma roda de samba minimalista do bloco Cacique de Ramos, lançando a partir dali compositores como Arlindo Cruz e outros. 
 
Por conta da riqueza dessas cenas registradas, e que trazem personagens como Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Ney Lopes e outros, além de episódios como a participação de Beth na campanha das Diretas-Já, em 1984 - uma das muitas manifestações de seu engajamento político -, é possível perdoar a qualidade precária de boa parte das imagens. Esta precariedade deve-se à variedade dos suportes do material, gravado em super-8, VHS, mini-DV,etc. Por mais que se tenha aplicado esforços para melhoria dos registros, há limitações técnicas incontornáveis, que ficam em segundo plano, porém, quando se atenta para o conteúdo. Estão aqui memórias dos 53 anos de atividade da sambista, uma das maiores intérpretes desse gênero musical que é sinônimo do Brasil, incluindo o registro doloroso de um de seus últimos shows, em que ela, já muito doente, teve que cantar deitada num divã para ir até o fim. Beth era assim. O show tem que continuar, até a última nota. Suas lembranças nos iluminam para a continuidade da jornada deste País que ela tanto amou, cujos artistas ela tanto valorizou. Viva Beth pra sempre!
 
post