Numa comunidade religiosa isolada, mulheres acordam todos os dias com sinais de abuso sexual, sendo convencidas de que existe algum fenômeno sobrenatural. Até que um dia um homem é visto saindo da casa de uma delas, confessando seu crime e de outros amigos. Todos os homens vão para a cidade pagar a fiança dos presos. As mulheres têm apenas algumas horas para se reunir e resolver o que fazer. Na Mubi.
- Por Alysson Oliveira
- 06/02/2023
- Tempo de leitura 3 minutos
Numa comunidade religiosa isolada, todo os dias as mulheres acordam com seus corpos violados. Têm marcas na pele, sangue e até sêmen. Os anciãos dizem que isso é causado pelo comportamento delas, que acabam visitadas por fantasmas e até mesmo Satã em pessoa, enquanto dormem. Porém, numa dessas noites, uma garota vê um homem saindo pela janela e grita. Ele é pego, e o esquema descoberto: diversos deles dopavam as mulheres com tranquilizante para vacas, para poder abusar delas conforme quisessem. Eles são presos e, no dia seguinte, os demais homens vão à cidade para negociar a fiança.
Entre Mulheres, de Sarah Polley, começa aí, quando as mulheres estão sozinhas, e devem decidir o que fazer. Elas concluem haver apenas três possíveis soluções: ficar e perdoar, lutar contra os homens, ou ir embora. Iletradas e sempre oprimidas, pela primeira vez elas estão votando sobre o que querem. Há um empate técnico entre lutar e partir, por isso, elas aproveitam o tempo sozinhas e debatem qual deve ser a decisão coletiva.
O mundo onde a narrativa se dá parece outro que lembra o nosso em suas estruturas. Embora nunca nomeada, é, claramente, uma comunidade menonita (parecida com aquela retratada em Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas), no Hemisfério Sul, pois é possível ver o Cruzeiro do Sul. O roteiro, assinado por Polley, e indicado ao Oscar, parte do romance da canadense Mirian Toews – ela mesma nascida e criada como menonita, até abandonar a comunidade aos 18 anos. A escritora, por sua vez, baseou-se numa história real ocorrida na Bolívia.
Polley, trabalhando com o diretor de fotografia Luc Montpellier, faz um filme de tons dessaturados, cores que beiram o preto e branco, dando a impressão de ser algo perdido no tempo, ou uma história que ficou no passado. A grande surpresa é quando passa um homem fazendo censo e ficamos sabendo que o ano é 2010. Esse microcosmo reproduz comportamentos, abusos e violências do mundo de fora sob a desculpa da religião.
Fazendo justiça ao seu título original, Women Talking, algo como "Mulheres Falando", o filme é estruturado pelas reuniões que as mulheres fazem enquanto os homens estão fora. A única presença masculina ali é August (Ben Whishaw), o professor da comunidade, a quem elas incumbem de tomar notas dos encontros. O longa poderia aí facilmente cair numa espécie de teatro filmado com personagens que representam mais tipos do que figuras humanas completas. Mas a direção evita bravamente essa armadilha.
A discussão começa, e passamos a ter mais bem delineados os perfis das mulheres. Salome (Claire Foy) tem personalidade forte, assim como Mariche (Jessie Buckley). Já Ona (Rooney Mara), que engravidou quando foi estuprada, é apaixonada por August. Ela tenta manter o equilíbrio, e busca argumentos para as duas posições. As diversas mulheres, das mais variadas idades, reunidas ali, formam um grupo de pessoas repletas de nuances, com histórias e vidas próprias, mas com um denominador em comum – a opressão, a violência e o abuso. A voz contrária é Janz, interpretada por Frances McDormand (também produtora do filme), num raro papel em que a atriz faz uma reacionária que se alinha com o opressor.
Embora assuma um ar atemporal, o filme é, no fundo, sobre assuntos contemporâneos e urgentes. São mulheres que foram silenciadas a vida toda e estão em busca de sua própria voz, de tomar para si, finalmente, seu lugar de fala. Os debates poderiam tornar-se facilmente panfletários, proselitistas ou forçados, mas graças à direção segura de Polley, e às atuações – todas extremamente convincentes – Entre Mulheres tem força e brio.
