04/07/2026
Drama

Entre Mulheres

Numa comunidade religiosa isolada, mulheres acordam todos os dias com sinais de abuso sexual, sendo convencidas de que existe algum fenômeno sobrenatural. Até que um dia um homem é visto saindo da casa de uma delas, confessando seu crime e de outros amigos. Todos os homens vão para a cidade pagar a fiança dos presos. As mulheres têm apenas algumas horas para se reunir e resolver o que fazer. Na Mubi.

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Numa comunidade religiosa isolada, todo os dias as mulheres acordam com seus corpos violados. Têm marcas na pele, sangue e até sêmen. Os anciãos dizem que isso é causado pelo comportamento delas, que acabam visitadas por fantasmas e até mesmo Satã em pessoa, enquanto dormem. Porém, numa dessas noites, uma garota vê um homem saindo pela janela e grita. Ele é pego, e o esquema descoberto: diversos deles dopavam as mulheres com tranquilizante para vacas, para poder abusar delas conforme quisessem. Eles são presos e, no dia seguinte, os demais homens vão à cidade para negociar a fiança.
 
Entre Mulheres, de Sarah Polley, começa aí, quando as mulheres estão sozinhas, e devem decidir o que fazer. Elas concluem haver apenas três possíveis soluções: ficar e perdoar, lutar contra os homens, ou ir embora. Iletradas e sempre oprimidas, pela primeira vez elas estão votando sobre o que querem. Há um empate técnico entre lutar e partir, por isso, elas aproveitam o tempo sozinhas e debatem qual deve ser a decisão coletiva.
 
O mundo onde a narrativa se dá parece outro que lembra o nosso em suas estruturas. Embora nunca nomeada, é, claramente, uma comunidade menonita (parecida com aquela retratada em Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas), no Hemisfério Sul, pois é possível ver o Cruzeiro do Sul. O roteiro, assinado por Polley, e indicado ao Oscar, parte do romance da canadense Mirian Toews – ela mesma nascida e criada como menonita, até abandonar a comunidade aos 18 anos. A escritora, por sua vez, baseou-se numa história real ocorrida na Bolívia.
 
Polley, trabalhando com o diretor de fotografia Luc Montpellier, faz um filme de tons dessaturados, cores que beiram o preto e branco, dando a impressão de ser algo perdido no tempo, ou uma história que ficou no passado. A grande surpresa é quando passa um homem fazendo censo e ficamos sabendo que o ano é 2010. Esse microcosmo reproduz comportamentos, abusos e violências do mundo de fora sob a desculpa da religião.
 
Fazendo justiça ao seu título original, Women Talking, algo como "Mulheres Falando", o filme é estruturado pelas reuniões que as mulheres fazem enquanto os homens estão fora. A única presença masculina ali é August (Ben Whishaw), o professor da comunidade, a quem elas incumbem de tomar notas dos encontros. O longa poderia aí facilmente cair numa espécie de teatro filmado com personagens que representam mais tipos do que figuras humanas completas. Mas a direção evita bravamente essa armadilha.
 
A discussão começa, e passamos a ter mais bem delineados os perfis das mulheres. Salome (Claire Foy) tem personalidade forte, assim como Mariche (Jessie Buckley). Já Ona (Rooney Mara), que engravidou quando foi estuprada, é apaixonada por August. Ela tenta manter o equilíbrio, e busca argumentos para as duas posições. As diversas mulheres, das mais variadas idades, reunidas ali, formam um grupo de pessoas repletas de nuances, com histórias e vidas próprias, mas com um denominador em comum – a opressão, a violência e o abuso. A voz contrária é Janz, interpretada por Frances McDormand (também produtora do filme), num raro papel em que a atriz faz uma reacionária que se alinha com o opressor.
 
Embora assuma um ar atemporal, o filme é, no fundo, sobre assuntos contemporâneos e urgentes. São mulheres que foram silenciadas a vida toda e estão em busca de sua própria voz, de tomar para si, finalmente, seu lugar de fala. Os debates poderiam tornar-se facilmente panfletários, proselitistas ou forçados, mas graças à direção segura de Polley, e às atuações – todas extremamente convincentes – Entre Mulheres tem força e brio.
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