04/07/2026
Drama

A esposa de Tchaikovsky

Mais célebre compositor russo, Pyotr Tchaikovsky mantém secreta sua homossexualidade. Uma admiradora apaixonada, Antonina Miliukova, insiste em casar-se com seu ídolo, que concorda, imaginando que isto desviará a atenção de sua vida íntima. Os conflitos se agravam entre os dois, mas a esposa recusa ser rejeitada, aprofundando seu drama.

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Participante da competição em Cannes 2022, o drama de época do russo Kirill Serebrennikov traz consigo uma nota sombria nesta livre cinebiografia, resgatando a figura bastante desconhecida da mulher do compositor Piotr Tchaikovsky (Odin Biron), Antonina Miliukova (a impressionante Alena Mikhailova).  
 
A jovem e miúda atriz Alena Mikhailova, na tela, lembra muito, na figura e na intensidade, a falecida Romy Schneider, impregnando sua atuação de um rastro de luz e sombra para encarnar uma personagem basicamente enlouquecida. Não se trata exatamente das verdades e mentiras de um casal, mas de um par unido pelo acidente de seus equívocos - Antonina, por sua obsessão em casar-se com Tchaikovsky e o compositor, por ter vacilado ao aceitar este casamento, possivelmente como um disfarce para a sua própria homossexualidade, condição altamente problemática na Rússia do século XIX.
 
Que a homossexualidade continue a ser estigmatizada na Rússia quase dois séculos depois é detalhe que certamente esteve em primeiro plano no interesse do engajado Serebrennikov em filmar esta história - ele que, anos atrás, não pôde deixar seu país e participar de Cannes, onde competiu em 2015 com seu drama Verão (Leto), nem em 2021, quando Petrov’s Flu foi igualmente selecionado. Desde 2017, o cineasta tinha problemas com a justiça russa, aparentemente por suas divergências do governo Vladimir Putin, sendo acusado de fraudes na organização de um festival de teatro que organizava. Por conta disso, foi alvo de uma condenação a 3 anos de prisão, cumprindo prisão domiciliar, cuja sentença foi primeiro suspensa, depois anulada por um tribunal de Moscou, já em 2022. Resolvida a pendência judicial, Serebrennikov exilou-se na Alemanha.
 
A alusão à homossexualidade de Tchaikovsky, aliás, foi também um motivo para que o filme não fosse financiado pelos programas estatais e sim por produtores independentes, dentro e fora da Rússia. Segundo o diretor afirmou em diversas entrevistas, as autoridades queriam impor que ele filmasse um “Tchaikovsky heterossexual”. 
 
À parte a ousadia de remexer na imagem de um monstro sagrado da música, requer muito talento entrar no espírito de uma época diferente da sua para compor o arco de emoções dos personagens de outro tempo de modo a que pareçam realmente vibrar na tela, com suas emoções e contradições. E isso Serebrennikov consegue mediante não só um roteiro encorpado e denso, assinado por ele mesmo, como por sequências admiráveis construídas com a parceria de seu diretor de fotografia Vladislav Opelyants, muitas delas surreais e de uma intensa beleza - como um balé insano entre Antonina e vários homens numa casa vazia e a composição de uma foto dela com o marido, que se repete duas vezes no filme, de forma radicalmente oposta. Todas essas cenas e os achados nas elipses, no figurino, nos cenários, contribuem para que o filme corresponda às boas expectativas em torno deste talentoso diretor, embora seja literalmente dilacerante acompanhar a tragédia pessoal de Antonina. 
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