04/07/2026
Drama

Raquel 1:1

Raquel acaba de perder a mãe de maneira trágica. Passa a viver com o pai, de quem a mãe era separada, e os dois vão viver numa cidade do interior. Religiosa, a moça se integra rapidamente a uma comunidade evangélica. Mas também sofre intolerância quando questiona alguns procedimentos. Ao mesmo tempo, é perturbada por visões.

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Integrante de uma nova geração de diretoras, Mariana Bastos (codiretora de Alguma Coisa Assim, 2018) avança com alguma ambição em Raquel 1:1, um drama que explora a problemática da adolescência num contexto interiorano e religioso - este, um tema mais do que oportuno.
 
Raquel (Valentina Herszage) é uma jovem que se muda com o pai, Hermes (Emílio de Mello), para uma cidade do interior. É recente uma tragédia, envolvendo a perda da mãe, mas se guardará segredo sobre os detalhes. O que ganha foco é a chegada da pequena família a um ambiente, em tese, acolhedor e também religioso.
Fé não é um problema para Raquel, que rapidamente se engaja num grupo evangélico, a partir da amizade com Ana Helena (Priscila Bittencourt) e Laura (Eduarda Samara). Raquel, aliás, é bem mais ligada em religião do que o pai e sua integração ao novo lugar parece tranquila.
 
É nítido que Raquel tem memórias mal-resolvidas do recente trauma, que não conhecemos. Mais um mistério se soma no dia em que ela, afastando-se das duas novas amigas num passeio a uma cachoeira, entra numa caverna e tem uma experiência aparentemente mística. De novo, não se sabe exatamente o que se passou ali.
 
As dinâmicas mais interessantes do roteiro, também assinado pela diretora, constroem-se em torno do conflito que se estabelece quando Raquel, apesar de sua fé, começa a questionar a forma como se conduzem as discussões dentro da igreja, ressentindo-se de uma doutrina que encoraja demais a passividade feminina. A partir daí, Raquel vive uma dualidade quase esquizofrênica em sua rotina. De um lado, parece perfeitamente racional ao liderar um grupo dissidente de discussão na igreja. Ao mesmo tempo, experimenta visões que sinalizam um distúrbio nervoso, uma referência aos traumas recentes, inclusive o episódio da caverna.
 
Dá-se um bom espaço à abordagem do tema da intolerância quando Raquel e também seu pai, dono do mercadinho local, passam a sofrer violência por parte da comunidade em torno da igreja, que atribui o comportamento de Raquel a uma suposta influência satânica. Apesar do esforço da boa intérprete, que protagonizou o suspense Mate-me por Favor, de Anita Rocha da Silveira, não é tão bem-construída, porém, a dualidade do comportamento da protagonista, que procura sustentar um suspense que, afinal, fica fragmentado. E o final aberto, que joga com as expectativas do público, também deixa dúvidas quanto às reais intenções da direção.
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