Dirigido por Gabriel Di Giacomo, o documentário Memória Sufocada pode ser um filme de inúmeros gatilhos. Seu tema é perene na cinematografia brasileira, e de enorme relevância: a ditatura civil-militar. Seu viés, no entanto, é extremamente contemporâneo: investigar o passado por meio de vídeos, textos, imagens, enfim, todo o material possível de encontrar na internet.
Feito durante a pandemia, o filme vasculha a grande rede em busca de informações confiáveis e monta um painel sobre a questão, tendo como fio condutor o depoimento do notório torturador Brilhante Ustra à Comissão Nacional da Verdade, em 2013, quando se negou a responder à maioria das perguntas.
A partir desse depoimento de pouco mais de uma hora, disponível na íntegra no Youtube, Di Giacomo, que também assina a montagem, constrói a não tão tênue relação entre o passado e o presente recente do Brasil, que culminou, em 2019, na eleição de Jair Bolsonaro para presidente.
O filme se organiza exatamente como uma busca na internet, quando um tema chama outro, depois outro e abas diversas do navegador são abertas, ampliando o escopo da própria pesquisa – quando se vê, a questão inicial ficou perdida lá atrás. O diretor aqui tem mais foco do que esse tipo de prática, concentrando-se em depoimentos também de vítimas da tortura, além de cenas de políticos – em especial Bolsonaro – exaltando Ustra.
Memória Sufocada é um filme com uma linguagem contemporânea, o que deve permitir uma comunicação bastante direta com um público mais jovem. Além disso, suas pesquisas pela internet servem como um alerta. É muito fácil encontrar informações, mas como separar o que é confiável das famigeradas fake news? O filme fornece um ambiente propício a essa discussão, que traz uma nova camada aos debates sobre a história do Brasil.
