Depois de uma temporada na Austrália, em que não mandou notícias para a família na Irlanda, Brian volta para casa. Sua mãe, Aileen, que trabalha numa fábrica de processamento de peixes, fica radiante com este retorno. Mas Brian não resolveu diversas pendências do passado. E se envolve numa situação que coloca em xeque também sua mãe e seu conceito na comunidade.
- Por Neusa Barbosa
- 29/03/2023
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Um toque edipiano percorre o drama irlandês Criaturas do Senhor, em que as duas diretoras, Saela Davis e Anna Rose Holmer, reúnem uma das mais talentosas duplas de intérpretes do país, Emily Watson e Paul Mescal.
Ambientada numa pequena localidade pesqueira, a história focaliza uma comunidade trabalhadora e bastante fechada em si mesma, em que os filhos, quase sempre, seguem o destino dos pais. Ou seja, trabalhando no processamento de pescado ou de ostras e tendo filhos cedo. Veterana, Aileen (Emily Watson) é a supervisora da fábrica de processamento de peixes. A filha, Erin (Toni O’Rourke), tem um bebê e mora com ela. O filho, Brian (Paul Mescal), há anos partiu para tentar a sorte na Austrália. E um dia, repentinamente, ele volta.
O retorno desse filho pródigo, que por muitos anos não mandou notícias, é motivo de alegria para a mãe, que amortece o visível desconforto entre ele e o pai, Con (Declan Conlon).
Como em Aftersun, que lhe valeu uma indicação ao Oscar, Mescal interpreta um homem de natureza ambígua, aqui dividido entre uma alegria e confiança exuberantes e ressentimentos mal explicados. É essa ambiguidade que, finalmente, move drasticamente a modorra da cidadezinha.
Por mais que Aileen encontre alegria na companhia do filho, a ponto de acompanhá-lo em noites de dança no bar local, não tardam a aparecer os efeitos de uma história mal-resolvida com Sarah (Aisling Franciosi), jovem empregada na fábrica de peixe, E, quando a moça acusa Brian de estupro, Aileen enfrenta seu dilema, quando é chamada na delegacia para confirmar o álibi do filho numa determinada noite.
O dilema ético de Aileen ocupa todo o espectro do drama, que não se empenha em revelar muito mais sobre Brian. Ele permanece essa presença dúbia, que lida mal com seus problemas do passado e com eventuais surtos de violência. Esse veneno, finalmente, se derrama por toda a comunidade, centrada em valores e costumes arraigados e machistas demais para ouvir devidamente a queixa de Sarah - que mulheres como Erin e mesmo Aileen podem perfeitamente compreender, apesar do comportamento assumido socialmente.
Se é verdade que Emily Watson carrega com talento todas as nuances de sua atormentada personagem até as últimas consequências, é preciso ser justo - Aisling Franciosi destaca-se, igualmente, como a portadora de uma feminilidade dignificada pela coragem e a divergência, apesar da sua dolorosa solidão.
