04/07/2026
Drama

Beau tem medo

Beau sofre de ansiedade e sempre imagina os piores cenários possíveis. Quando a celebração de uma data familiar o obriga a voltar à casa de sua mãe, com quem tem uma relação conturbada, ele precisa enfrentar uma jornada repleta de lances improváveis.

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Beau tem medo, e também tem ansiedade e uma mãe judia arquetípica – e tudo isso está ligado. Em seu novo filme, Ari Aster passa três horas dentro da mente de uma pessoa ansiosa, para quem todos os piores cenários imaginados se materializariam em sua jornada. Joaquim Phoenix, que em seu currículo não tem poucos personagens com questões mentais e emocionais, encara aqui um tour de force como o protagonista, cujo medo de agir domina sua vida.
 
O primeiro trauma de Beau, no começo do filme, é o nascimento. A separação dele e sua mãe, Mona, – interpretada por Zoe Lister-Jones, nos flashbacks; e uma memorável Patti LuPone no presente. Ele é criado apenas por ela, uma vez que seu pai morreu antes de seu nascimento – numa história muito peculiar, que será revelada ao longo do filme.
 
Claramente, Beau tem mommy issues, mas ele não é o único aqui. A chantagens emocionais de Mona com o filho não são poucas. Fora isso, ela é uma empresária bem-sucedida. Na cidade onde mora, tudo parece girar em torno dela. O filho, por sua vez, mora num bairro periférico de uma grande cidade, marcado pela violência, o que apenas potencializa a ansiedade do personagem. Atravessar a rua para comprar uma garrafa de água pode ser uma odisseia de vida ou morte.
 
Aster, que já mostrou nos seus outros dois longas, Hereditário e Midsommar – O mal não espera a noite, estar bem interessado em dinâmicas familiares, e como esse ambiente, que deveria ser de acolhimento e conforto, pode se tornar palco de horror. Certamente, todas as questões de Beau remetem à relação com a mãe. A figura paterna é apenas um monstro escondido no sótão.
 
A longa duração de Beau tem medo não parece ser mero exibicionismo ou virtuosismo. A exasperação que o personagem sente demanda tempo. Para a forma casar com o conteúdo aqui, o filme precisa ser longo e, em certa medida, até cansativo. A cabeça de uma pessoa ansiosa não é o melhor lugar para se habitar, mas Aster nos leva até lá, sem muita piedade com o público. Por outro lado, é notável como ele tem enorme carinho e respeito por esse personagem – não o transforma num saco de pancadas ou faz deste um filme sádico, pelo contrário. Há uma melancolia enorme aqui.
 
Há também cenas de extrema beleza visual e narrativa. A jornada de Beau rumo à casa de sua mãe toma caminhos inesperados, ora obscuros, ora ternos. Tudo começa com um atropelamento, que o leva a ser “adotado” por um casal estranho (Nathan Lane e Amy Ryan), cujo filho mais velho morreu numa missão do exército, e a filha adolescente (Kylie Rogers) é viciada em pílulas fornecidas pelo pai. A família também abriga um colega do filho, Jeeves (Denis Ménochet), um sujeito sofrendo de estresse pós-traumático e programado para matar.
 
O outro lado dessa caminhada o leva a um teatro no meio de uma floresta composto apenas por órfãos adultos. É um momento de inesperada poesia em meio ao caos da jornada de Beau, sempre tão marcada pela violência. Num lance que eleva os elementos fantásticos do filme, Aster dá ao protagonista a chance de ver um possível futuro – também marcado pela ansiedade, mas não apenas por isso.
 
Em sua filmografia, Aster costuma lançar olhares improváveis a questões delicadas. No curta The Strange Thing About the Johnsons, ele conta uma história de abuso na qual um filho molesta seu pai. Ao inverter os papeis mais comuns numa situação exagerada, ele horroriza e nos coloca cientes de como o abuso de crianças por adultos cada vez mais passa despercebido.
 
Em Beau tem medo, Aster questiona, também, o amor incondicional. Ao potencializar algo que poderia ser positivo, ele mostra um lado doentio e sufocante. Uma coisa boa em excesso ainda é um coisa boa? Certamente, esse será um filme com reações divididas – o que é o comum, aliás, na obra do diretor. Mas, de qualquer forma, será impossível ficar indiferente.
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