Nos últimos anos, Makoto Shinkai se tornou um dos principais nomes do anime contemporâneo. Suas obras chamam tanto a atenção, que seu mais recente filme foi exibido em competição no Festival de Berlim. Suzume é uma fantasia juvenil repleta de energia e criatividade (e uma cadeira falante de três pernas), com um colorido vibrante e hipnótico.
Suzume vai ao centro de questões urgentes do nosso tempo: desastres ambientais – o que diz muito no Japão, um país afetado por tsunamis, terremotos e vulcões. Shinkai, que também assina o roteiro, captura o zeitgeist e o trauma com delicadeza e sagacidade, com a competência de dialogar com um público adulto e infanto-juvenil.
A heroína aqui é Suzume, uma jovem órfã de 17 anos, cujo único memento que guarda da mãe é uma cadeira amarela que ganhou em seu aniversário. Morando com sua tia, ela é um tanto solitária. O cenário é a ilha de Kyushu, a terceira maior do arquipélago japonês, e que foi atingida, ano passado, por um tufão, um terremoto e um vulcão entrou em erupção.
Aqui, um desastre natural é um portal para Suzume entrar em outra dimensão, acompanhada de sua cadeira amarela de três pernas, agora servindo como uma espécie de hospedeira para um rapaz que a protagonista acabou de conhecer, que parece ter poderes mágicos e por quem parece estar apaixonada.
Ao passar para outra dimensão, como uma Alice no País das Maravilhas, Suzume liberta criaturas mágicas e malignas, que, simbolicamente, acabam representando os desastres naturais do país. Vagando pelo Japão, a jovem e sua cadeira encontram diversos portais, em lugares que foram dizimados por esses eventos – colocando em cena uma questão bastante relevante sobre a herança cultural e social devastada de forma inesperada.
Com duas horas de duração, Suzume, no entanto, exige certa atenção – e um filme mais curto, possivelmente, seria mais facilmente assimilável – com uma narrativa às vezes confusa, que subverte suas próprias regras. Alguns segredos da personagem, por exemplo, seriam essenciais para melhor compreensão da trama. De qualquer forma, esse é um belo filme, no qual Shinkai encontra uma maneira muito eficiente e, em certa medida, poética de lidar com os traumas coletivos de uma nação. Estruturado como um road movie, o longa é uma viagem por pontos pitorescos do Japão, e também um alerta, nacional e emocional, sobre os eternos desafios do país.
