04/07/2026
Drama

Evolução

Eva nasceu no campo de concentração de Auschwitz e sobreviveu por milagre. Na velhice, ela sofre de demência mas não consegue esquecer os traumas desse passado. Resiste à tentativa da filha, Lena, de que possam obter alguma espécie de compensação. Vivendo na Alemanha, Lena e o filho adolescente, Jonas, também têm que lidar eventualmente com o antissemitismo.

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Revelado em 2014 com Deus Branco, que venceu o prêmio da mostra Un Certain Regard em Cannes, o cineasta húngaro Kornel Mundruczó vem formando uma obra de personalidade marcante a partir de sua temática e realização formal. Tornou-se mundialmente conhecido especialmente a partir de Pedaços de uma Mulher, que levou a atriz Vanessa Kirby a vencer o prêmio de interpretação feminina em Veneza 2020 e receber uma indicação ao Oscar. E é com mesma parceira deste último filme no roteiro, sua mulher Kata Wéber, que ele assina o drama Evolução, que percorre as três gerações de uma família judaica entre a Hungria e a Alemanha para examinar temas como trauma e intolerância.
 
Mundruczó é um diretor que sempre investe no conceito visual e em grandes planos-sequência para articular suas histórias e o faz também aqui, aliado ao diretor de fotografia Yorick Le Saux. No primeiro capítulo, intitulado Eva, as imagens falam mais do que tudo, numa sequência de cerca de 20 minutos praticamente sem diálogos, ambientada no campo de concentração de Auschwitz. Aí é revelada a origem da personagem, num episódio que explica seus traumas futuros, quando a reencontramos no segundo segmento, intitulado Lena - que vem a ser sua filha -, agora interpretada por Lili Monori. Mas a contundência dessa primeira parte é certamente crucial para o envolvimento emocional do espectador. 
 
Mãe e filha (Annamaria Lang) ocupam o centro dessa segunda parte, em que se expressa com mais nuances e muitas palavras o drama da família. A velha senhora Eva está mergulhando na demência e Lena procura convencê-la a localizar papéis de sua mãe para comprovar a ascendência judaica que, nos dias atuais, pode proporcionar-lhes algum tipo de indenização. É aí que se manifestam as contradições de Eva, desdobrando as memórias traumáticas que a filha recebeu como herança emocional mas não viveu na pele, como ela. Um contraste exasperante que, tal como na primeira parte, tem uma explosão algo surreal, expressionista, traduzindo visualmente o sufoco da situação.
 
A terceira parte, Jonas - nome do adolescente filho de Lena, interpretado por Goya Rego - já projeta outro aspecto da permanência da intolerância, a partir de um episódio na escola do garoto, de que ele é alvo por ser judeu e não por outro motivo. Interessante neste segmento é que Jonas tem uma parceira com quem pode se solidarizar como alvo de bullying - uma garota muçulmana, de origem turca, Yasmin (Padmé Hamdemir). E é aqui, neste desdobramento da história da família, que o filme imagina o que pode ser um futuro melhor, em que os perseguidos têm a oportunidade de dividir seus sentimentos e construir laços de amor, não de ódio.
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