04/07/2026
Drama

Rio Doce

Thiago leva uma vida dura, vivendo em Rio Doce, na periferia de Olinda. Trabalhando numa casa de jogos eletrônicos, ele ajuda sua ex-companheira na criação da filha pequena e sofre de constante dores nas costas. Uma complicação surge quando uma desconhecida o procura e diz que ele pode ser filho do pai dela, que morreu há um tempo.

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É um bem-vinda estreia em longas a do diretor pernambucano Fellipe Fernandes com seu Rio Doce, cujo título se refere a um bairro de periferia de Olinda, espaço central da ação deste filme, premiado no Olhar de Cinema de 2021. A ocupação de espaços é uma questão central aqui – reais e metafóricos, físicos e emocionais.
 
O protagonista é Thiago (interpretado pelo rapper Okado do Canal), que trabalha numa casa de jogos eletrônicos, e tem um filha pequena com sua ex-companheira. Um dia, inesperadamente, é procurado por uma mulher, Helena (Tássia Cavalcanti), dizendo que, ao que tudo indica, eles são irmãos por parte de pai. Essa surpresa é uma bomba que cai em sua vida, mudando tudo, inclusive sua visão da paternidade.
 
Essa questão é cara ao filme: a reconfiguração da masculinidade e da paternidade no mundo contemporâneo, onde os antigos modelos já não fazem mais sentido, mas os novos ainda estão em construção. Como lidar com isso num mundo que não lhe dá a direção?
 
O exemplo de criação que Thiago vai encontrar é em sua mãe mesmo, interpretada por Claudia Santos. E, nesse sentido, mesmo sendo protagonizado por um personagem masculino, Rio Doce é um filme de incomum força feminina. O rapaz descobre que tem três irmãs – além de Helena, Catarina (Amanda Gabriel), e a caçula, Laura (Nash Laila).
 
O roteiro toma caminhos inesperados quando evita o clichê da mera briga de filhas legítimas contra o possível irmão que desconheciam. Cada uma reage de um jeito: Catarina é a mais desconfiada e Laura logo se apega ao irmão. Há diversos complicadores que Rio Doce estabelece nesses novos laços: elas são brancas e de classe média, e Thiago, não. Dessa forma, o filme investiga abismo sociais e raciais que pautam o Brasil contemporâneo.
 
Fernandes, cujo currículo conta com filmes como o curta O Delírio é a Redenção dos Aflitos, mostra-se um diretor de olhar aguçado para questões sociais, colocando o seu humanismo cinematográfico a serviço de debates pertinentes na contemporaneidade. Rio Doce poderia facilmente cair em algo panfletário, até proselitista de um discurso de desconstrução forçada. Mas não, ele dá elementos e o pontapé no debate – resta agora ao público levar isso adiante. 
 
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