04/07/2026
Drama Comédia

Nintendo e eu

Paolo é um adolescente, nas Filipinas dos anos de 1990, que tem um nintendo, o que o leva a se reunir com seus amigos em sua casa para jogar. Nessa mesma época, eles começam a amadurecer e descobrir o amor.

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Nintendo e eu é uma entrada inesperada na filmografia do filipino Raya Martin, mais conhecido sobre seu estranho Independência, de 2009, construído como um filme mudo sobre história de seu país. Aqui, ele se aproxima dos filmes norte-americanos sobre amadurecimento, situando nos final dos anos de 1980, às vésperas da substituição do Nintendo pelo Sega, e a erupção do vulcão Pinatubo. É um olhar carinhoso por essa época – especialmente pelas crianças que estavam se tornando adolescentes nesse momento.
 
O videogame, como bem indica o título, tem um papel importante no filme, mas também serve como uma metáfora de uma espécie de cola social que une as crianças em momentos comunais, mesmo que marcadas por disputas e também símbolo de status – quem tinha um, se destacava entre os outros. Nada disso, no entanto, serve como diferencial dentro do filme que, mesmo situado nas Filipinas, está bem próximo da gramática hollywoodiana do gênero.
 
Paolo (Noel Comia Jr.) é de classe média alta, filho de uma mãe solo, Patricia (Agot Isidro), católica fervorosa, que dá de tudo ao menino, seja de forma religiosa, emocional ou material mesmo – ele tem um Nintendo e logo também terá um par de Nike novo e caro. Kachi (John Vincent Servilla) e Gilligan (Jiggerfelip Sementilla) são seus melhores amigos – mas não tão ricos –, com quem partilha as férias de verão jogando videogame. Há também Mimaw (Kim Oquendo), a única menina do grupo, que não se encaixa no estereótipo das outras meninas da época, sempre com roupas caras e cor-de-rosa, presilhas nos cabelos e dando risadinhas quando veem os garotos.
 
Trabalhando com um roteiro assinado pela produtora do filme, Valerie Castillo Martinez, Martin lança um olhar nostálgico sobre aquele momento de transformação que marcará a vida do quarteto. A ensolarada fotografia levemente esmaecida, de Ante Cheng, coloca o filme nesse campo da saudade do momento quando eram mais ingênuos e os problemas se resumiam a passar de fase em um game.
 
Os garotos estão alheios à drástica crise econômica que seu país enfrenta naquele momento. O pais era governado por Corazón Aquino, que fora eleita depois do longo governo do ditador Ferdinand Marcos. Se as crianças estão desligadas disso, o filme, no entanto, não está. E elementos, ora explícitos, ora de forma sutil (como um discurso da presidenta na televisão) dão conta de um país em convulsão social, e, nesse sentido, o vulcão é, também, outra espécie de materialização simbólica.
 
Martin tem, claramente, um carinho enorme pelos personagens, por essa época (ele não tinha nem 10 anos no momento em que a ação é situada) e por seu país, mas suas escolhas nem sempre dão conta do campo da especificidade filipina – em especial na forma como toma emprestado sem praticamente subverter os modelos hollywoodianos. Por outro lado, Nintendo e eu é um filme que, certamente, dialogará com mais facilidade com o público do que o hermético Independência.
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