05/06/2026
Documentário

Outro País

Em 25 de abril de 1974, ocorreu a Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura em Portugal, que já durava 41 anos. Naqueles dias, muitos fotógrafos e cineastas estrangeiros acorreram ao país, captando movimentações de um povo que conquistava seus direitos na cidade e no campo. O diretor Sérgio Tréfaut entrevista alguns deles, observando que boa parte do material que produziram permanece longe dos arquivos portugueses.

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Aos 25 anos da Revolução dos Cravos, em Portugal, o cineasta brasileiro Sérgio Tréfaut - que é ali radicado desde 1977 - realizou o documentário Outro País. Nele, realiza um balanço do primeiro quarto de século daquela revolução que varreu a ditadura salazarista, que pesava sobre a nação há 41 anos, através das imagens, em fotografias e trechos de filmes, realizados por diversos fotógrafos e cineastas estrangeiros naqueles primeiros dias. Não deixa de observar, no entanto, que boa parte desse material nunca foi adquirido pelos arquivos portugueses, permanecendo, assim, longe dos olhos dos habitantes do país. 
 
Num determinado momento do filme, Tréfaut comenta que, se quiséssemos entrar em contato com todo esse material disperso, que rendeu diversos livros e filmes, teríamos que fazer uma volta ao mundo. E, até certo ponto, ele mesmo a faz, apropriando-se de trechos daqueles documentários e de fotos, entrevistando aqueles que os realizaram.
 
Em alguns casos, esta conversa não é mais possível, como acontece com Gláuber Rocha, que colheu alguns preciosos momentos dos primeiros tempos da revolução entrevistando cidadãos portugueses de todos os tipos em seu filme As Armas e o Povo, que capta os rostos de um povo feliz, aliviado e também ansioso pelo seu futuro.
 
Do lado brasileiro, não falta igualmente Chico Buarque cantando a famosa Tanto Mar, homenageando os ventos da liberdade que chegavam a Portugal mas ainda tardariam no Brasil, assolado pela ditadura militar. 
 
Agências internacionais para lá enviaram seus fotógrafos, como Jean Gaumy, Guy de Querrec e Dominique Isserman, estes alguns dos entrevistados do filme, em depoimentos de quem assistiu de perto a agitação frenética de um país finalmente sacudido de um torpor que parecia infinito. 
 
Também são entrevistados cineastas, como o documentarista alemão Thomas Harlan, autor de Torre Bela, e que observa a incrível diferença entre estes militares portugueses que conduziram seu país à esquerda e os fardados de Augusto Pinochet que, no Chile apenas um ano antes, em 1973, haviam protagonizado um sangrento golpe militar.
O sueco Pea Holmquist, que produziu documentários para a TV sueca em 1974, também compartilha imagens de outro filme mais recente, feito em 1998, em que ele volta à região de Baleizão, no Alentejo, reencontrando Custódia, uma personagem que testemunha as mudanças ocorridas neste intervalo. Ela se lamenta de que “a irmandade e a liberdade acabaram. A reforma agrária morreu”. Da mesma forma, Guy de Querrec retorna em 1998 a Mões, no distrito de Viseu, ao norte, constatando um arrefecimento do fervor revolucionário.
 
Apesar deste arrefecimento, é inegável que se forjou um novo país em 1974, cujo resultado é o Portugal moderno, democrático e integrado à Europa. As imagens de fotos e filmes que procuraram captar o funcionamento de uma revolução ao vivo fornecem elementos para que se avalie a materialização de uma utopia, ainda que em parte - cuja semente brota, incessantemente, em outro lugar, como observa Michel Dequenne, o diretor francês de Setúbal, Ville Rouge, que documentou uma das experiências lusitanas de 1974.
 
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