04/07/2026
Drama

Dançando no silêncio

Houria estuda desde criança para tornar-se uma bailarina na Argélia. Mas, enquanto ensaia, tem que sobreviver trabalhando como camareira de hotel, assim como suas colegas na companhia de dança.. Tentando ganhar um dinheiro extra, ela aposta à noite nas rinhas de carneiros. Numa noite em que ganha, é agredida e sofre um dano irreparável

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Diretora de Papicha, que representou a Argélia em 2019 na disputa de uma indicação ao Oscar, Mounia Meddour continua, em seu segundo longa, Dançando no Silêncio, uma obra focada nos dilemas da condição feminina em seu país. 
 
A cineasta junta-se, mais uma vez, à jovem atriz Lyna Khoudri, protagonista aqui como Houria, uma talentosa bailarina clássica que é obrigada, para sustentar-se, a recorrer a um emprego como camareira de hotel - assim como sua melhor amiga, Sonia (Amira Hilda Douaoua).
 
A amplidão dos movimentos de dança, em que as duas e suas colegas voam no palco, contrasta fortemente com o emparedamento pessoal e profissional vivido num país repleto de contradições, marcado pelos resquícios da colonização francesa e também de uma recente onda de terror fundamentalista. 
 
Para superar as limitações de sua renda, Houria recorre secretamente às apostas ilegais em rinhas de carneiros. Seu sonho é comprar um carro para a mãe, Sabrina (Rachida Brakni), viúva e professora de dança. Por um tempo, Houria tem sucesso, mas um dia seu ganho incomoda o dono do carneiro perdedor e ele a segue - agredindo-a para tomar seu dinheiro. Como consequência, Houria é gravemente ferida.
 
A próxima parte do filme refere-se a esta convivência com o trauma físico e psicológico - Houria deixou de falar. As cores e luzes do filme, na fotografia de Léo Léfévre, tornam-se mais sombrias para acompanhar a depressão da protagonista, que precisa rapidamente encontrar uma forma de reconstruir-se - esta uma necessidade permanente para tantas mulheres ali, diante de barreiras que não cessam de multiplicar-se.
 
A situação política do país entra pelo contexto da vida de Houria e Sabrina. Quando procuram a delegacia de polícia para denunciar a agressão, encontram uma enorme displicência - e ainda mais quando se descobre que o agressor é um ex-terrorista arrependido, cuja punição nenhuma das autoridades está empenhada em obter. Também no passado da família, as circunstâncias da morte do pai de Houria apontam para a convivência recente com explosões fundamentalistas.
 
Apesar de algumas limitações de seu modelo de melodrama, o filme extrai potência do retrato da situação das mulheres especialmente quando incorpora um centro de assistência que atende pacientes com problemas de fala e traumas diversos. Entre essas mulheres feridas, Houria encontra um novo sentido de vida ao buscar formas para compartilhar com elas técnicas de expressão pela dança. Esse vocabulário não verbal proporciona cenas de grande força e beleza ao filme, que não facilita, no entanto, nenhum final magicamente feliz. Ao apontar o desespero de tantos cidadãos que procuram a imigração clandestina, em barcos precários para a Espanha, Mounia Meddour destaca o imenso impasse em que seu país todavia se encontra.
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