Paulo Miklos estreou no cinema vivendo o matador Anísio, em O Invasor, de Beto Brant, no começo dos anos 2000. Era um personagem marcante em seu cinismo e como, em si, revelava uma parcela da crueldade do Brasil naquele momento. Em O Homem Cordial, novamente, ele vive uma figura que simboliza uma espécie de sintoma de seu tempo: o cancelamento. Ele foi premiado no Festival de Gramado de 2019 por esse trabalho.
O título remente à famosa expressão de Sérgio Buarque de Holanda, sobre como o brasileiro age pelo coração, mais do que pela razão. É esse mote que dá o ponto de partida ao filme dirigido por Iberê Carvalho, com roteiro dele e do uruguaio Pablo Stoll (Whisky). Miklos é Aurélio, vocalista de uma banda de sucesso no passado, que hoje tenta voltar aos holofotes.
Exatamente, na noite de um show de comeback, algo trágico acontece pouco antes da apresentação. Viraliza na internet um vídeo no qual ele aparece envolvido na morte de um policial. Não fica claro o que aconteceu, e como se tornou comum, a filmagem logo se espalha pelas redes e ele é cancelado. Porém, tudo é muito mais complexo do que isso. Entra em cena a jornalista Helena (Dandara de Morais).
Tudo começa quando um menino (Felipe Kenji) é acusado de roubar um celular, Aurélio sai em sua defesa e o episódio acaba na tragédia não esclarecida, que logo ganha espaço na mídia, dividindo opiniões. Miklos, presença constante em cena, dá ao personagem as feições de uma figura marcada pelo tempo e pela vida.
Camargo, que tem em seu currículo o belo e melancólico O último cine drive-in, opta aqui pela tensão exasperante num crescendo que consome o filme. Não há bem momentos de respiro, é uma longa jornada noite adentro, na qual Aurélio é praticamente desmantelado pelos outros e por si mesmo.
Tocando em assuntos bem contemporâneos, O Homem Cordial tenta ser uma espécie de raio-X do presente, mas nem sempre se encontra. A tal cultura do cancelamento é muito complexa e, ao colocar um homem branco de classe média cisgênero e heterossexual como vítima disso, o filme dá um passo em falso. A discussão perde um pouco de sua complexidade, uma vez que provar sua inocência é mais fácil do que se pertencesse a outro grupo.
