Ninguém melhor do que um diretor de 91 anos que ali começou sua carreira em 1954 para assinar o filme-homenagem ao centenário do tradicional estúdio japonês Shochiku do que Yoji Yamada. Cineasta prolífico, que tem a seu crédito mais de um filme por ano de vida (fez 92 até agora), Yamada equilibra-se, mais uma vez, na gangorra entre a sofisticação temática e o decidido compromisso de comunicar-se com o público nesta obra delicada e afetuosa.
A partir do drama da família de Goh (Kenji Sawada), um homem que está pondo em risco a sobrevivência do clã com os problemas que causa à mulher e à filha pelos vícios da bebida e do jogo, o enredo desenvolve uma trama que inclui também os bastidores da própria realização cinematográfica. Adaptando livro da escritora Maha Harada, Yamada traça na tela o passado de Goh, que foi diretor assistente no estúdio e escreveu um roteiro que deveria tê-lo alçado à direção.
Ao retratar este ambiente, o filme apresenta os outros dois personagens essenciais: Terashin (Yohiro Noda), o melhor amigo de Goh, montador do estúdio, e Yoshiko, funcionária de um restaurante próximo por quem ambos se apaixonam.
As referências cinematográficas se imiscuem na vida do trio. Ao mesmo tempo que filmam Pétalas ao Vento, de H. Demizu, Goh escreve seu roteiro, cuja trama se assemelha à de A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, em que um ator sai da tela para falar com uma espectadora no cinema.
A maneira como Yamada expande estes relacionamentos, sem perder de vista a intenção de invocar a mágica do cinema, é única e envolvente. E, se ele não é nem pretende ser um esteta, à maneira de Yasujiro Ozu ou Kenzi Mizoguchi, a verdade é que este nonagenário diretor não perdeu a mão na tarefa de acender o sentimento e a imaginação de um grande público.
