São Paulo surge como uma verdadeira personagem em A Cidade dos Abismos, um título bem propício a esse cenário, que ora é mesquinho, ora terno com as figuras que habitam o filme – mas nunca indiferente. Dirigido por Priscyla Bettim & Renato Coelho, o longa coloca em primeiro plano figuras particulares que vagam à noite pela região central da cidade.
O filme, por sua vez, transpira um enorme carinho pelas figuras excluídas, lançando-lhes um olhar doce e gentil, dando-lhes um protagonismo que a cidade raramente lhes oferece. A ação se passa numa Noite de Natal, um momento que de união, no qual três pessoas improvavelmente se encontram diante de um acontecimento bárbaro.
Glória (Verónica Valenttino), mulher trans; Bia (Carolina Casta), jovem da classe média paulistana; e Kakule (Guylain Mukendi), imigrante africano, testemunham um assassinato num bar. Eles não se conhecem, mas a indignação mútua os une diante da impunidade, e prometem fazer justiça.
A partir desse mote, o roteiro, assinado por Bettim, é uma longa jornada noite adentro, com momentos de profunda beleza visual e conteúdo humanista. Um deles é uma bela missa realizada pelo Padre Julio Lancelotti, conhecido por sua atuação junto às minorias. A cena é visualmente profunda mas é seu conteúdo, no comovente discurso do religioso, que lhe acrescenta ainda mais força.
Ao contrário da urgência marcante de São Paulo, a narrativa se dá num tempo próprio, recusando-se a se rebaixar à filosofia do dinheiro que nunca dorme. Com um quê assumidamente teatral, é um filme de resistência e sobre resistência.
Remetendo ao cinema dos anos de 1980, com sua estética neon, A cidade dos abismos é, ao mesmo tempo, homenagem e nostalgia por um momento de mais ingenuidade e esperança, e menos cinismo. Talvez nesse olhar para o passado esteja uma busca para acalentar o presente. Tudo isso, no entanto, se dá altamente filtrado pela e para a sensibilidade do presente, em seus debates sobre identidades e violência.
