04/07/2026
Drama

A cidade dos abismos

Após presenciar um crime brutal na véspera de Natal, num bar no centro de São Paulo, um trio formado por uma mulher trans, uma jovem de classe média e um imigrante angolano se une para buscar justiça.

post-ex_7
São Paulo surge como uma verdadeira personagem em A Cidade dos Abismos, um título bem propício a esse cenário, que ora é mesquinho, ora terno com as figuras que habitam o filme – mas nunca indiferente. Dirigido por Priscyla Bettim & Renato Coelho, o longa coloca em primeiro plano figuras particulares que vagam à noite pela região central da cidade.
 
O filme, por sua vez, transpira um enorme carinho pelas figuras excluídas, lançando-lhes um olhar doce e gentil, dando-lhes um protagonismo que a cidade raramente lhes oferece. A ação se passa numa Noite de Natal, um momento que de união, no qual três pessoas improvavelmente se encontram diante de um acontecimento bárbaro.
 
Glória (Verónica Valenttino), mulher trans; Bia (Carolina Casta), jovem da classe média paulistana; e Kakule (Guylain Mukendi), imigrante africano, testemunham um assassinato num bar. Eles não se conhecem, mas a indignação mútua os une diante da impunidade, e prometem fazer justiça.
 
A partir desse mote, o roteiro, assinado por Bettim, é uma longa jornada noite adentro, com momentos de profunda beleza visual e conteúdo humanista. Um deles é uma bela missa realizada pelo Padre Julio Lancelotti, conhecido por sua atuação junto às minorias. A cena é visualmente profunda mas é seu conteúdo, no comovente discurso do religioso, que lhe acrescenta ainda mais força.
 
Ao contrário da urgência marcante de São Paulo, a narrativa se dá num tempo próprio, recusando-se a se rebaixar à filosofia do dinheiro que nunca dorme. Com um quê assumidamente teatral, é um filme de resistência e sobre resistência.
 
Remetendo ao cinema dos anos de 1980, com sua estética neon, A cidade dos abismos é, ao mesmo tempo, homenagem e nostalgia por um momento de mais ingenuidade e esperança, e menos cinismo. Talvez nesse olhar para o passado esteja uma busca para acalentar o presente. Tudo isso, no entanto, se dá altamente filtrado pela e para a sensibilidade do presente, em seus debates sobre identidades e violência.
post