Após conseguir sobreviver a campo de concentração, onde perdeu toda sua família, um homem polonês passa a viver no interior de um país da América do Sul. Um dia chega um novo vizinho, e ele tem certeza de que o homem é Hitler, que teria simulado sua própria morte e agora leva uma vida tranquila fingindo ser outro homem.
- Por Alysson Oliveira
- 19/05/2023
- Tempo de leitura 3 minutos
A premissa de Meu Vizinho Adolf! é das mais interessantes: um polonês sobrevivente do Holocausto vivendo no interior de um país genérico da América do Sul tem certeza de que seu novo vizinho é o próprio Hitler, que não teria se matado num bunker ao fim da Segunda Guerra. O problema é que o filme, dirigido por Leon Prudovsky, não consegue manter-se à altura dessa premissa intrigante.
O versátil ator alemão Udo Kier, usando uma gigantesca barba grisalha, interpreta o malfadado vizinho, Herzog, enquanto o inglês David Hayman é Polsky, que perdeu toda sua família num campo de concentração, imigrando para a América do Sul, onde leva uma vida solitária plantando rosas negras, as favoritas de sua falecida esposa.
O embate entre os dois se inicia quando o cachorro de Herr Herzog começa a destruir o jardim de Polsky. O polonês, então, passa a notar detalhes estranhos no novo vizinho: além de ter uma advogada alemã, Frau Kaltenbrunner (Olivia Silhavy), e receber ajuda de jovens soldados alemães, o homem misterioso também tem o hábito peculiar de pintar – algo que, como se sabe, era uma frustração de Hitler, não ter se tornado pintor.
Porém, há um outro indício mais forte, ao menos para Polsky. Anos atrás, ele competiu num campeonato de xadrez com Hitler, e nunca mais esqueceu o olhar do ditador nazista. Aí está um dos furos do longa escrito pelo diretor e Dmitry Malinsky. Hitler nunca foi conhecido como um exímio jogador de xadrez, e é um deslize no filme que tenta tão acuradamente traçar paralelos entre a figura real e Herzog.
Aos poucos, de forma estranha e inesperada, os dois homens se tornam amigos por via do xadrez, que passam a jogar juntos com certa constância. Estaria Polski tornando-se amigo de seu maior inimigo? Ou procurando evidências – embora para ele já estivesse claro – de que o homem é Hitler? Mais de uma vez, o polonês procura o consulado israelense e diz ter encontrado Hitler. Embora atenciosa, a funcionária que o atende diz que isso é impossível. Além disso, todo mês dezenas de pessoas aparecem lá com a mesma história de que Hitler é seu vizinho.
O filme se constrói de maneira irregular, transitando entre a comédia e o drama, sem nunca se aprofundar muito nos gêneros ou personagens. Polsky se resume a essa paranoia. Para ele, não há vida pregressa a esse momento, exceto o campo de concentração. Sua obstinação em provar que Herzog é Hitler é enorme, a ponto de tentar ver os testículos do vizinho, para se certificar de que ele tem apenas um – como era sabido sobre Hitler.
Ao fim, Meu vizinho Adolf! encontra uma saída plausível, mas um tanto frustrante e simplista, que apenas corrobora a falta de profundidade psicológica das personagens. E, dessa forma, é como se os traumas de Polsky fossem facilmente resolvidos com a resolução do mistério sobre o vizinho. Ao invés do confronto, o filme prega uma conciliação.
