04/07/2026
Drama

A Febre de Petrov

Petrov está gripado, mas isso não impede que seu melhor amigo o leve a uma longa jornada noite adentro numa Rússia que está saindo do regime comunista.

post-ex_7
Esse é primeiro filme que o cineasta russo Kirill Serebrennikov (A esposa de Tchaikovsky) realizou após passar um período de 20 meses em prisão domiciliar. A sentença foi revista e ele foi liberado do confinamento, mas não podia, na época, deixar seu país. Porém, o fato de já poder sair de casa permitiu que fizesse esse longa, um delírio febril surreal que não se detém por um segundo – como se seu diretor e roteirista quisesse recuperar o tempo perdido.
 
O enredo é baseado num livro de Alexey Salnikov, que o próprio Serebrennikov já havia adaptado para o teatro - o que é difícil de imaginar, dado seu teor tão cinematográfico e alucinatório, mais fácil de reproduzir na tela do que no palco.
 
O Petrov do título é um homem de 30 anos (Semyon Serzin), que trabalha como mecânico, mas aspira ser um quadrinhista. Doente, ele tosse sem parar – algo que nesses tempos pandêmicos pode colocar parte do público em estado de alerta, embora o longa tenha sido rodado antes de a pandemia começar. O rapaz atravessa a cidade para encontrar um grupo de amigos, mas sua temperatura não para de subir e seus delírios tornam-se cada vez mais surreais.
 
Sua mulher, Petrova (Chulpan Khamatova), é uma bibliotecária, levando uma vida aparentemente tranquila, até que ocorre uma guinada radical. Ela se torna uma super-heroína dotada de habilidades ímpares, oferecendo mais um elemento fantástico num filme em que o tempo da narrativa se distende ou se contrai conforme o desejo do diretor.
 
A Febre de Petrov é um filme único em sua estrutura, como bonequinhas russas que tomaram LSD, com um andamento cada vez mais alucinado e improvável, com um tom de homoerotismo, um tema banido na Rússia. Marcado pela nostalgia do fim da URSS, o longa viaja no tempo e no espaço na construção do seu imaginário, colocando em cena desde festinhas infantis típicas de fim de ano no país até uma heroína sanguinária em suas vinganças. A fotografia de Vladislav Opelyants contribui e muito no sentido de criar um pesadelo alucinatório e inesperado, num filme que não pára de surpreender.
 
Embora, não seja uma obra escancaradamente política, A Febre de Petrov não deixa de ser um trabalho de um dissidente – numa condenação polêmica de desvio de verba pública –, que, ao seu modo, contesta tudo o que há de mais retrógrado e asfixiante no sistema
post