04/07/2026
Drama

Medusa deluxe

Há vários anos, Mosca organiza um concurso regional de penteados. Quando, às vésperas de mais uma edição, ele aparece assassinado, cabeleireiros e modelos que estão no local entram em conflito não só pelos temores sobre quem é o culpado, mas principalmente pelas próprias e ferinas rivalidades.

post-ex_7
Apesar da presença constante de pentes e tesouras afiadas, seu material de trabalho, a verborragia ácida é a principal arma usada pelos cabeleireiros que são os protagonistas de Medusa Deluxe, o longa de estreia do britânico Thomas Hardiman. 
 
Nem por isso, deixa de ter ocorrido um crime que necessitou de objeto cortante, no caso, o assassinato de Mosca (John Alan Roberts), o idealizador de um concurso regional de penteados altamente exóticos, que foi encontrado escalpelado poucas horas antes da competição. 
 
Por conta disso, há uma trama policial de início, um whodunit que se esboça entre os cabeleireiros e modelos participantes, que são forçados ao confinamento no prédio, enquanto a polícia realiza sua investigação. O que se mostra e o que se esconde é totalmente parte do clima que o diretor procura instaurar - os policiais, por exemplo, só são vistos de longe. O foco mesmo está no mundo dos cabeleireiros, que, especialmente por estarem trancados, logo colocam à tona mais do que as suas suspeitas sobre os possíveis assassinos, suas rivalidades mais acirradas - e elas não são poucas.
 
Medusa Deluxe move-se, assim, em torno de dois eixos. O primeiro, e mais sofisticado, o trabalho de câmera do diretor de fotografia Robbie Ryan (indicado ao Oscar por A Favorita), que mantém a ilusão do take único através de um cuidadoso planejamento de planos-sequências que seguem cada um dos personagens ao longo de corredores, banheiros, escadas, num cenário labiríntico que evoca as ratoeiras, numa perfeita metáfora da situação claustrofóbica em que se encontram. A montagem de Fouad Gaber sustenta a ilusão de continuidade que formata a urgência de tempo real pretendida pelo diretor. 
 
O segundo eixo é o próprio roteiro, também assinado por Hardiman, mais preocupado em desenterrar os rancores, segredos e paixões mal-resolvidas de todos os presentes, encaixando-os na grande ciranda de tensões que não se esgotam nas suspeitas de cada um sobre quem pode ter cometido o crime. Essa suspeita, afinal, rapidamente se encaminha para um potencial culpado e, quando se resolve, perto do final, não provoca comoção nem surpresa.
 
Hardiman mostra mais interesse em desdobrar as camadas da personalidade de seus personagens, da agressiva Cleve (Clare Perkins) à religiosa Divine (Kayla Meikle), do emocional Angel (Luke Pasqualino) à dedutiva Inez (Kae Alexander), passando pela explosiva Kendra (Harriet Webb) e os atormentados René (Darrell D’Silva) e Gac (Heider Ali). Cada um deles, e alguns outros, tem sua ligação peculiar com o falecido mas o que importa é o papel que desempenham nesse microcosmo de vaidades que o concurso, afinal, amplia e exaspera.
 
Esse objetivo do diretor, que nem sempre se realiza a contento, e de tempos em tempos perde o ritmo, ganha um fôlego novo, no entanto, numa sequência final que reúne os participantes da trama numa coreografia musical inspirada - que remete ao artificialismo da própria ficção numa moldura extravagante, que tem tudo a ver com a história que se pretendeu contar. De todo modo, este elenco, que tem pouca experiência anterior, é empenhado e merece atenção. 
post