04/07/2026
Drama

Capitu e o capítulo

Julio Bressane adapta o clássico de Machado de Assis pela perspectiva de Capitu, objeto do amor doentio de seu marido, Bentinho.

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Um fio da trama de Dom Casmurro, clássico de 1899 de Machado de Assis, é o pretexto para que o veterano diretor carioca Julio Bressane coloque em funcionamento os mecanismos de seu cinema de invenção e reinvenção, neste filme que foi exibido no Festival de Roterdã e no Olhar de Cinema 2021 e só agora chega aos cinemas. 
 
Colocando em cena tanto o próprio protagonista do enredo na maturidade (Enrique Díaz) para explorar nuances em torno da figura do narrador - encarnando de certa forma também o próprio Machado -, quanto personagens, como Capitu (Mariana Ximenes), Bentinho (Vladimir Brichta), Sancha (Djin Sganzerla) e Escobar (Saulo Rodrigues), o cineasta cria esquetes que colocam em foco o desejo, o confronto, a hipocrisia e tantas outras nuances do romance, sem uma preocupação de compor uma adaptação fiel.
 
Antes, mediante o usual cuidado com a direção de arte, criam-se molduras para que estes personagens encenem ideias, conceitos e emoções que o diretor quer abordar, sempre com inúmeras referências pictóricas, no trabalho cuidadoso do diretor de fotografia Lucas Barbi. Não escapa à atenção que os figurinos femininos parecem mais atuais do que os masculinos - estes últimos, mais fiéis aos padrões de vestimenta do século XIX, o que sem dúvida acena para a dissonância entre a ousadia das mulheres e a acomodação dos homens, particularmente diante do desejo. 
 
O que permanece mais interessante no cinema de Bressane depois de todos estes anos em atividade é sua capacidade de manter-se fiel a si mesmo, compondo filmes que são, por si mesmos, experimentos e provocações à inteligência do espectador, desafiando-o a seguir as pistas com as quais seu intelecto e sensibilidade mais sintonizar. Conta, para isso, com a adesão de seus intérpretes à sua particular espécie de dispositivo, onde cabe sempre a beleza da arte e da música ao redor deles. 

Uma discreta ousadia se expressa nas cenas da filmagem que se intercalam nos créditos finais, tendo Exaltação à Mangueira, na voz de Jamelão, como trilha sonora - um bem-vindo adendo a algumas das melhores coisas que o Brasil já produziu abordadas pelo filme, a primeira delas, a obra do próprio Machado de Assis.
 
 
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