Em 1988, Jean Newman é uma professora de educação física numa escola do ensino médio na Inglaterra que precisa esconder sua homossexualidade por conta da intolerância e da tentativa de implantação de legislação restritiva aos LGBTQIA+. Em conflito, ela se defronta com um caso de bullying contra uma de suas alunas, Lois, também lésbica.
- Por Neusa Barbosa
- 24/07/2023
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Confiante na expressividade ao mesmo tempo marcante e sutil de sua protagonista, Rosy McEwen, a diretora e roteirista inglesa Georgia Oakley trilha um caminho seguro nesta sua estreia em longas que é um mergulho no sufoco dos anos 1980, sob o governo de Margaret Thatcher. Naqueles dias, tantas formas de liberdade, inclusive a sexual, estavam sitiadas - inclusive por uma série de leis que proibiam a “promoção da homossexualidade”.
Jean Newman (Rosy McEwen) é uma professora de educação física numa escola de ensino médio que vive tensionada numa vida dupla. Na escola, esconde o quanto pode seu lesbianismo, temendo por seu emprego. Em sua vida privada, frequenta bares gays e vive um namoro com Viv (Kerrie Hayes), que é bem mais aberta e resolvida quanto à sua orientação sexual.
No roteiro, também escrito pela diretora, esta dualidade, que é central à história, se desdobra em situações cotidianas, numa escola em que o bullying também encontra um alvo na homossexualidade de uma das alunas, Lois (Lucy Halliday). Na vida da professora, Lois representa um desafio, já que defendê-la do assédio das outras alunas equivale a assumir sua própria sexualidade publicamente, o que ela recusa fazer, paralisada pelo medo.
Não é um medo gratuito e um dos acertos do filme é mostrar o grau de repressão dessa Inglaterra conservadora dos anos 1980 através de recursos como programas de rádio, TV e dizeres nas paredes, defendendo os “valores morais tradicionais”. As conversas dos colegas professores de Jean na escola também não escondem esse conservadorismo introjetado da “norma”, ou seja, da expectativa de heterossexualidade de tudo e de todos naquele ambiente.
Outro acerto é manter Jean como uma pessoa comum, não uma heroína disposta a grandes feitos. Seus temores e falhas, que a levam finalmente a sentir culpa, são justamente o que a torna humana e capaz de inspirar solidariedade, compreensão e irmandade. Para isso, contribui o trabalho de direção, que coloca a ênfase dramática não só nos diálogos como no rosto e no corpo de Jean, carregando em sua pele as contradições de um tempo intolerante e cruel - que não deixa também de ter conexão com outros tempos e lugares, inclusive os nossos, em que se tenta replantar as sementes da intolerância e do moralismo.
Exibido na mostra Giornate degli Autori do Festival de Veneza 2022, o filme venceu ali o prêmio de público, além de ter sido indicado a um Bafta de melhor diretora estreante.
