04/07/2026
Drama

Casa vazia

Raul é um peão desempregado que se une a um bando de ladrões de gado, no interior do Rio de Grande do Sul. Um dia, quando chega em casa, sua mulher e filhas desapareceram.

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Casa Vazia é um grata surpresa no cenário da produção gaúcha contemporânea. Deixando de lado os tradicionais épicos históricos, o estado tem encontrado em dramas mais intimistas uma maneira de discutir a identidade local na contemporaneidade. Esse filme, escrito e dirigido por Giovani Borba, estreando em longas, é uma espécie de western gaúcho, marcado pelo silêncio e a fotografia potente de Ivo Lopes Araújo (Bacurau), premiado no Festival do Rio por esse trabalho.
 
Como é caro ao gênero, o cenário é mais do que um elemento visual, é um personagem na trama, que se passa na região fronteiriça entre o Brasil e o Uruguai, com longas planícies ameaçadas pela modernidade. Também típico do gênero é o protagonista, Raúl (Hugo Nogueira), um homem taciturno e solitário, cuja vida tem um revés quando chega em casa e descobre que sua mulher sumiu junto com as filhas.
 
Como figura de um faroeste, Raúl não é o herói, o xerife com uma arma em punho, nem o vilão com outra arma em mãos pronto para um duelo. Ele é o oprimido por um sistema latifundiário tipicamente brasileiro, que sufoca sua existência no plano material e também no emocional. Ele é o camponês de quem o bonde da modernidade tirou o sustento e, em certa medida, a razão de ser.
 
Borba constrói um filme soturno pautado pelo lusco-fusco e o silêncio do personagem, e também da região. Raúl sai em busca da família desaparecida e cada parada para questionar é um novo elemento que o diretor traz ao filme, fazendo um retrato de um lugar que parece esquecido pelo tempo mas não pela exploração.
 
O embate entre a tradição e o avanço é o que marca a narrativa, numa chave bastante realista. Não há romantização do passado que ficou para trás, nem das possíveis glórias de um futuro moderno. Nogueira, ator estreante, é a medida da materialização do embate figurado na vida de um personagem. O desemprego é uma realidade sócio-histórica da transformação da identidade do camponês, que leva Raúl a se juntar a um bando para roubar gado.
 
Em Casa Vazia, Borba investiga uma nova configuração da identidade do gaúcho, do homem do campo que perde sua vez para a industrialização. Como lidar com isso? Não há respostas fáceis, e nem cabe ao filme esgotá-las. O que interessa é como o longa retrata essa pessoa em transformação e como sua mudança reflete também aquela do espaço que o cerca – algo típico também do western. Nesse sentido, é um filme repleto de coisas a dizer.
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