Nascido no Irã, filho de um casal de músicos de origem curda, Giwar Hajadi tem uma infância e adolescência atribuladas. Passando pelo exílio e o refúgio na Alemanha, depois do divórcio dos pais ele se envolve com tráfico de drogas e roubo, passando pela prisão. Mas a música tem um papel essencial na vida do futuro rapper Xatar. Na plataforma Sesc Digital (até 7/1/2025).
- Por Neusa Barbosa
- 04/08/2023
- Tempo de leitura 2 minutos
Rapper e empresário de sucesso, Giwar Hajabi carrega uma biografia que pedia um filme. Nascido no Irã, de pais curdos atuantes na música clássica, teve que exilar-se com a família depois da ascensão do regime teocrático do aiatolá Khomeini, em 1979. A epopeia dos Hajabi começou no Iraque, até que o regime de Saddam Hussein colocou-os todos na prisão - inclusive o menino. Depois, encontraram refúgio na Alemanha, onde seu pai, o maestro Eghbal Hajabi, poderia retomar sua carreira. Mas outros caminhos seriam trilhados por Giwar depois do divórcio de seus pais, quando enveredou pelo crime - até que a música finalmente levou a melhor.
Baseando-se na autobiografia escrita pelo próprio personagem, o diretor Fatih Akin compôs um filme cheio de sangue, fúria, contradições, lutas, conflitos, que delineiam a trajetória de um homem nada comum. Do menino tímido que frequentava aulas particulares de piano ao adolescente revoltado que se torna traficante ao adulto ousado que ocupa um lugar de destaque no submundo, Giwar, que se tornou famoso como o rapper e produtor Xatar, viveu experiências que não estiveram ao alcance de qualquer um. Muitas delas, violentas.
Com a habitual energia que imprime a seus filmes, Akin elabora uma cinebiografia que não perde de vista a humanidade de seu protagonista, interpretado com brio na fase adulta pelo ator Emilio Sakraya, mas também não alivia ao contemplar seus erros e escolhas desastrosas e arriscadas. Tudo somado, Xatar pisou no acelerador e esteve perigosamente cara a cara com a morte em muitas ocasiões, fazendo jus ao seu nome artístico, que significa “perigoso”.
Akin opta por apresentá-lo já numa prisão na Síria, em 2010. Só depois, aos poucos, o enredo se desdobra para apresentar os caminhos que levaram Xatar até ali, em idas e vindas no tempo que se estruturam na montagem precisa de Andrew Bird. Passam pela tela a transformação radical do personagem adolescente, tornando-se um valentão na periferia de Bonn, seu mergulho no tráfico e a inusitada manutenção de seu vínculo com a música, encontrando no rap a mais perfeita tradução desta vida bandida - além de um natural espírito empreendedor que, mais tarde, o conduzirá a lançar selos musicais de sucesso.
Como muitas vezes antes em sua carreira, do pioneiro Contra a Parede que lhe deu um Urso de Ouro em 2004 ao contundente Em Pedaços, premiado em Cannes em 2017, Akin mostra-se um diretor maduro, capaz de explorar os lados sombrios da histórias e dos personagens sem sucumbir a nenhum tipo de condescendência. Da mesma forma, obtém um equilíbrio difícil ao retratar personagens marginais como Xatar sem se furtar a explorar vários aspectos de sua humanidade. Uma marca registrada do diretor é deixar aflorar o humor sempre que possível, o que alivia a barra-pesada em muitas situações.
