Documentário poético é um gênero complicado, pois é mais fácil errar do que acertar ao deixar tudo excessivamente ligado à poesia, ou forçar para a encontrar. Não é o caso em Terra que marca, dirigido pelo português Raul Domingues, também conhecido por seu trabalho como montador em filmes como Antonio um dois três.
Como documentarista, Domingues se mostra um cineasta observacional com uma câmera delicada, nada intrusiva, que acompanha o trabalho de um casal de idosos cuidando de uma terra que parece abandonada, largada ao tempo. Não há diálogos, um frase aqui e lá, entre eles, mas praticamente inaudível. O som que se ouve é o da natureza, dos pássaros, o vento passando pelas folhas, o fogo sobre galhos secos, mas também o da enxada cavucando a terra ou do trator passando por cima de tudo.
A câmera, ora próxima deles, ora distante, são nossos olhos acompanhando o trabalho manual e pesado, que realizam metodicamente. Há algo de Saramago nessa observação carinhosa do povo do campo, de um trabalho que se repete e se perpetua, a manutenção da tradição.
O filme também lembra, de certa forma, o italiano As Quatro Voltas, de Michelangelo Framartino. Em ambos, o tempo é o senhor da narrativa. Humanos, animais e a natureza estão à sua mercê, as idas e vindas da vida e do trabalho não marcam a passagem do tempo, mas é o tempo que dita as ordem das coisas.
