O primeiro acerto no filme dirigido por Dandara Ferreira e Lô Politi é o título - ao declarar seu nome, simplesmente, Gal fazia uma declaração de quem era, de corpo e alma. O filme, aliás, afirma essa identidade da cantora por um corpo e uma voz que disseram muito mais do que as palavras. Ao contrário de seus amigos de toda a vida, Caetano Veloso e Gilberto Gil, Gal era reservada com as palavras, o que fez com que muitos não enxergassem a extensão de seu papel no Tropicalismo, do qual ela foi a figura feminina número um, com aquela voz de cristal que continua vibrando em nossa memória, quase um ano depois de sua partida.
Outro acerto é o roteiro, em sua versão final assinado pela diretora Lô Politi, escolher um recorte temporal significativo para definir a cantora, sem perder-se na pretensão de tentar abranger sua vida toda - ainda mais tendo em vista as polêmicas cercando sua morte e sua herança, que tão cedo não serão esclarecidas.
O recorte escolhido é justamente o período em que Maria da Graça Penna Burgos (Sophie Charlotte), nascida em Salvador, desembarca no Rio de Janeiro, em 1966, aos 20 anos, para dar início à sua transformação em Gal Costa. Vem integrar-se a um coletivo do qual fazem parte sua amiga de infância, Dedé (Camila Márdila), Caetano Veloso (Rodrigo Lélis) e Gilberto Gil (Dan Ferreira), dentro do qual fermenta a efervescência de uma liberdade comportamental e de uma arte musical que estão sendo sitiados pela ditadura militar de 1964.
Ainda Maria da Graça, a cantora chega tímida, sem ainda compreender que espaço deve ocupar nesse grupo tão expressivo - e a voz que se solta, os cabelos, o figurino e a liberdade sexual que tomam novos rumos são sinais dessa Gal que está nascendo e se tornando a estrela que conhecemos ao longo de nossas vidas.
Figuras laterais nesse crescimento fazem suas participações, como o empresário Guilherme Araújo (Luís LoBianco), de um lado, e mesmo sua mãe, Mariah (Chica Carelli) - cujas intervenções são cristalinas para compreender a origem de um lado dessa Gal que se arroja no desconhecido sem perder a delicadeza jamais.
A opção de recriar momentos cruciais da trajetória da cantora entre 1966 e 1971 (data do celebrado show “Fa-Tal”), valendo-se de materiais de arquivo mais para retratar a repressão da ditadura nas ruas, também se mostra eficaz para manter uma unidade em termos de fotografia e direção de arte, sem sufocar a energia do filme - que vibra todo em torno dessa protagonista cavando seu espaço de expressão em tempos sombrios. O filme nos lembra de que, quando Caetano e Gil foram presos e partiram para o exílio em Londres, foi ela quem continuou aqui, segurando o estandarte da criatividade e da alegria possíveis com sua simples presença. Mas já era então uma presença muito mais ativa e posicionada, o que Gal foi até o fim, quando se manifestou várias vezes contra os desmandos do governo Bolsonaro.
Um risco que o filme, felizmente, não corre, é pretender que Sophie Charlotte imite Gal Costa em qualquer sentido - inclusive na sua voz irrepetível. O filme se vale do fato de que Sophie é uma boa cantora, aproveitando seus vocais, numa mistura sutil com os da própria Gal - que comparece no fim, em vídeos de diversos momentos de sua carreira, acompanhando os créditos.
O mesmo ocorre com os atores intérpretes de Caetano e Gil, no uso de suas vozes. Eventualmente, se ouve uma gravação original, como de London, London, na voz de Caetano, no momento em que Gal assiste a um filme enviado pelo amigo exilado. Essa mescla entre realidade e recriação atende na justa medida às necessidades de uma cinebiografia restrita, com intenções bem claras de resgatar um momento histórico, o nascimento de um movimento da contracultura que foi da maior importância e balizou a sensibilidade do País de maneira indelével.
A própria Gal acompanhou o nascimento do projeto do filme, há seis anos, e que passou pela realização de um documentário por Dandara Ferreira - O nome dela é Gal -, aprovando e incentivando inclusive a escalação de Sophie Charlotte, de quem assistiu a alguns vídeos. Não quis interferir em nada no processo, queria ver o filme pronto. Infelizmente, não foi possível. O filme se torna, então, uma forma de pensar nela, rever seu legado e matar um pouco de saudade sem que nenhum dos envolvidos pretenda jamais esgotar o grande mistério de Gal.
