A diretora portuguesa Cláudia Varejão conquistou o prêmio de melhor filme na seção Jornada dos Autores do Festival de Veneza 2022 com esta obra extremamente sensível e sensorial. Trata-se de uma crônica sobre a vida de adolescentes na ilha de São Miguel, a maior do arquipélago dos Açores, nestes tempos em que padrões de gênero vêm sendo rediscutidos - mas ali, no ambiente insular e fortemente marcado pelo conservadorismo do catolicismo tradicional, há imensos obstáculos para a aceitação do novo.
Apoiada na fotografia extraordinária do premiado Rui Xavier, no trabalho empenhado de som de Olivier Blanc e na montagem de João Braz, a diretora imprime a esta ficção uma marca documental que se elabora nas peles de seus protagonistas, atores novatos, Ana (Ana Cabral) e Luis (Ruben Pimenta).
O rosto de Ana é o mapa que permite ao espectador medir os sentimentos de alguém que está descobrindo o mundo a partir de uma natureza tão bela quanto isolada, ao mesmo tempo que começa a ter consciência das diferenças de expectativas e papeis entre homens e mulheres. Filha única entre três irmãos, ela é cobrada de mais tarefas dentro de casa, às quais deve somar o estudo e a participação no comércio da família.
Seu melhor amigo, Luis, ao manifestar seu gosto por brincos, maquiagens e roupas femininas, coloca em xeque as tradições machistas locais. A chegada de uma amiga de Ana, Cloé (Cristiana Branquinho), acirra a pulsão por descobertas sexuais dela, levando o filme ao registro de uma fisicalidade amorosa delicada e singular.
Com uma narrativa poderosamente visual, é o tipo do filme do qual se podem extrair tantas camadas quanto aquelas a que um espectador sensível se dispuser. Quando parece que quase nada está acontecendo, na verdade, é o turbilhão da vida se impondo diante de nossos olhos.
